Argonautha – Música e Cultura Pop

Isto é Bom: o primeiro disco do Brasil

No início do século XX, quando o Brasil ainda engatinhava como República e o Rio de Janeiro se consolidava como centro cultural do país, um acontecimento silencioso, porém revolucionário, mudaria para sempre a forma como a música seria produzida, consumida e lembrada. Em 1902, foi gravada “Isto é Bom”, canção que é amplamente considerada o primeiro disco da indústria fonográfica brasileira.

Mais do que um simples registro musical, essa gravação marca o nascimento de um novo paradigma cultural: a música deixa de existir apenas como performance ao vivo e passa a ser um objeto reproduzível, comercial e duradouro. A partir desse momento, o Brasil entra definitivamente na era da música gravada.

O nascimento da música gravada no Brasil

Para entender a importância de “Isto é Bom”, é necessário olhar para o contexto tecnológico e cultural da época.

Até o final do século XIX, os registros sonoros no Brasil eram extremamente limitados e experimentais. O som podia ser captado em cilindros de cera de fonógrafo, tecnologia ainda rudimentar e de baixa qualidade. Essas gravações eram raras, caras e não tinham circulação comercial estruturada.

Tudo começa a mudar com a chegada da Casa Edison, no Rio de Janeiro, fundada pelo empresário tcheco naturalizado brasileiro Fred Figner. A empresa não apenas vendia fonógrafos, mas também passou a produzir discos comerciais no Brasil, conectando o país ao que havia de mais moderno na indústria fonográfica mundial.

Nesse contexto, surge o selo Zonophone, responsável por algumas das primeiras gravações comerciais realizadas em território brasileiro.

E é justamente nesse cenário pioneiro que “Isto é Bom” ganha vida.

Xisto Bahia e o lundu brasileiro

A composição de “Isto é Bom” é atribuída a Xisto Bahia, um dos grandes nomes da música e do teatro popular do século XIX. Antes de sua morte em 1894, Xisto já havia se consolidado como um importante compositor de lundus, gênero musical que mistura elementos africanos e portugueses e que é considerado um dos pilares da música popular brasileira.

O lundu, ao contrário da ideia de uma música puramente folclórica, era um gênero urbano, dançante e extremamente popular nos salões, teatros de revista e festas do período imperial e do início da República.

Caracterizado por sua síncope rítmica, seu humor malicioso e sua forte carga expressiva, o lundu pode ser visto como um dos ancestrais diretos do samba.

“Isto é Bom” carrega exatamente essas características: ritmo envolvente, linguagem popular e uma forte dose de irreverência.

Bahiano: a primeira grande voz do Brasil fonográfico

O intérprete da gravação é Manuel Pedro dos Santos, conhecido artisticamente como Bahiano (ou Baiano). Nascido em 1870, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, ele se tornaria uma das figuras mais importantes da primeira fase da música gravada no Brasil.

Bahiano não foi apenas um cantor. Ele foi um verdadeiro pioneiro da indústria fonográfica nacional.

Sua voz aparece em registros fundamentais, incluindo:

  • “Isto é Bom” (1902);
  • diversas modinhas e lundus gravados pela Casa Edison;
  • e, posteriormente, “Pelo Telefone” (1917), considerado o primeiro samba gravado no Brasil.

Sua importância é ainda maior quando consideramos as limitações técnicas da época. As gravações eram feitas de forma totalmente mecânica, sem microfones ou amplificação. O cantor precisava projetar a voz diretamente em um grande cone acústico, exigindo potência vocal e precisão interpretativa.

Bahiano se destacava exatamente por isso: sua voz era forte, clara e perfeitamente adaptada ao novo meio tecnológico.

A letra e o universo do lundu

A letra de “Isto é Bom” revela muito sobre o espírito do lundu e da cultura popular do século XIX.

Em versos como:

“A renda de tua saia
Vale bem cinco mil réis
Arrasta mulata a saia
Que eu te dou cinco e são dez
Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói…”

percebe-se uma combinação de humor, malícia e jogo de palavras típico da tradição oral brasileira.

A repetição da frase “isso é bom que dói” reforça o caráter ambíguo da canção, que pode ser interpretada tanto como elogio à sensualidade quanto como expressão de duplo sentido, característica recorrente na música popular brasileira desde seus primórdios.

Esse tipo de linguagem não era exceção, mas parte integrante da cultura musical da época, especialmente em gêneros como o lundu e, mais tarde, o samba.

A revolução do disco de 78 rotações

O lançamento de “Isto é Bom” também marca um ponto de virada tecnológico fundamental.

Antes disso, a música gravada no Brasil ainda estava restrita aos cilindros de cera. Com a chegada do disco de 78 rotações, a indústria fonográfica ganha um formato mais durável, replicável e comercialmente viável.

Essa mudança transformou completamente o mercado musical.

Pela primeira vez, uma canção brasileira podia ser:

  • distribuída em larga escala;
  • vendida em lojas especializadas;
  • reproduzida inúmeras vezes em casa;
  • e preservada como registro histórico.

Em outras palavras, a música deixa de ser apenas um evento e passa a ser um produto cultural.

“Isto é Bom” ocupa exatamente esse ponto de transição.

A Casa Edison e o nascimento da indústria musical brasileira

A Casa Edison desempenhou um papel central nesse processo.

Sob a liderança de Fred Figner, a empresa não apenas importava tecnologia, mas também começou a registrar artistas brasileiros, criando um catálogo que hoje é considerado o embrião da discografia nacional.

A gravação de “Isto é Bom” inaugura oficialmente esse catálogo.

A partir daí, a Casa Edison passa a contratar intérpretes, organizar sessões de gravação e distribuir discos, estruturando aquilo que mais tarde se tornaria a indústria fonográfica brasileira.

Em termos históricos, trata-se de um marco comparável ao surgimento das primeiras gravadoras nos Estados Unidos e na Europa.

O impacto cultural de “Isto é Bom”

O impacto de “Isto é Bom” vai muito além da música em si.

Ela representa:

  • o início da música gravada no Brasil;
  • a profissionalização do cantor popular;
  • a transição do lundu para a música popular moderna;
  • e o surgimento de uma indústria cultural estruturada.

Mais do que isso, a gravação simboliza a entrada do Brasil na modernidade sonora.

A partir desse momento, a música brasileira passa a ser registrada, preservada e comercializada, criando as bases para tudo o que viria depois: samba, choro, rádio, MPB e pop contemporâneo.

Um legado que atravessa mais de um século

Ouvir “Isto é Bom” hoje é mais do que um exercício de curiosidade histórica. É um encontro direto com o momento em que a música brasileira começou a existir como registro permanente.

Sua importância não está apenas na melodia ou na letra, mas no fato de ter inaugurado uma nova era.

Sem essa gravação, a história da música brasileira seria outra.

E sem artistas como Xisto Bahia e Bahiano, talvez o país demorasse ainda mais a reconhecer a força cultural da sua própria sonoridade popular.

Mais de 120 anos depois, “Isto é Bom” continua sendo exatamente o que seu título sugere: um marco tão simples quanto extraordinário na história da música brasileira.