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Choro do Calado: a gravação histórica que preservou as origens do choro

Entre os registros mais importantes da história da música brasileira, poucas gravações possuem um valor documental tão significativo quanto “Choro do Calado”. Registrada nos primeiros anos do século XX, essa composição instrumental representa um dos mais antigos testemunhos fonográficos do choro, gênero musical que se consolidaria como uma das maiores expressões da cultura brasileira.

Embora sua autoria permaneça desconhecida, sendo geralmente atribuída como anônima ou tradicional, a obra tornou-se um verdadeiro patrimônio histórico. Afinal, ela documenta uma fase em que o choro ainda estava em processo de consolidação, preservando características musicais desenvolvidas décadas antes por Joaquim Calado, considerado o grande pioneiro do gênero.

Mais do que uma simples gravação antiga, “Choro do Calado” oferece aos pesquisadores e amantes da música brasileira uma rara oportunidade de ouvir como soavam os primeiros conjuntos instrumentais responsáveis pela formação da linguagem do choro.

O nascimento do choro brasileiro

Para compreender a importância de “Choro do Calado”, é necessário voltar à segunda metade do século XIX, período em que o Rio de Janeiro vivia profundas transformações culturais.

Naquela época, músicos populares passaram a interpretar danças europeias — como polcas, schottisches, mazurcas e valsas — utilizando uma maneira tipicamente brasileira de tocar. O resultado foi o surgimento de uma nova linguagem musical marcada por síncopes, improvisação, liberdade rítmica e intensa interação entre os instrumentistas.

Foi justamente nesse contexto que surgiu o choro.

Apesar do nome sugerir um estilo melancólico, o gênero sempre apresentou grande diversidade de emoções, incluindo peças alegres, festivas, virtuosas e extremamente dançantes. O termo “choro” refere-se muito mais à forma de interpretação do que ao sentimento transmitido pela música.

Joaquim Calado: o pai do choro

Nenhum personagem é mais importante para essa história do que o flautista Joaquim Antônio da Silva Calado Júnior(1848–1880).

Reconhecido como o “Pai do Choro”, Calado revolucionou a música popular brasileira ao organizar um conjunto instrumental que serviria de modelo para praticamente todas as formações de choro das décadas seguintes.

Seu grupo era composto por:

  • flauta como instrumento solista;
  • dois violões;
  • cavaquinho.

Essa combinação tornou-se praticamente a formação oficial do choro durante muitos anos e influenciou gerações de músicos, incluindo Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros, Pixinguinha e inúmeros outros.

É justamente essa tradição que inspira o título “Choro do Calado”, uma homenagem direta ao músico responsável por estabelecer os fundamentos estéticos do gênero.

Uma composição de autoria desconhecida

Diferentemente de muitas obras consagradas do repertório do choro, “Choro do Calado” não possui autoria comprovada.

Diversos pesquisadores a classificam como uma composição tradicional ou anônima, situação relativamente comum nas primeiras décadas da música popular brasileira. Naquele período, muitas peças circulavam oralmente entre músicos antes mesmo de serem registradas em partituras ou discos.

Independentemente de seu verdadeiro autor, a composição tornou-se historicamente relevante por representar uma das primeiras gravações comerciais do gênero realizadas no Brasil.

A Casa Edison e o início da indústria fonográfica brasileira

A gravação de “Choro do Calado” está diretamente ligada ao nascimento da indústria fonográfica nacional.

Fundada pelo empresário tcheco Fred Figner, a Casa Edison iniciou suas atividades no Rio de Janeiro em 1900 e rapidamente tornou-se responsável pelos primeiros registros comerciais produzidos em território brasileiro.

Naquele momento, gravar um disco era um processo totalmente mecânico. Não existiam microfones, mesas de som ou recursos eletrônicos.

Os músicos executavam suas performances diante de um enorme cone acústico, cuja vibração movimentava uma agulha capaz de gravar diretamente os sulcos em um cilindro ou disco de cera.

Todo o equilíbrio sonoro dependia exclusivamente do posicionamento físico dos músicos diante do equipamento de gravação, tornando cada registro uma verdadeira obra artesanal.

As primeiras gravações de “Choro do Calado”

Entre aproximadamente 1902 e 1903, “Choro do Calado” foi registrada comercialmente pela Casa Edison utilizando o selo internacional Zon-O-Phone.

A obra recebeu pelo menos duas gravações históricas realizadas por conjuntos diferentes:

  • Banda da Casa Edison;
  • Grupo da Cidade Nova.

Esses registros figuram entre as gravações instrumentais mais antigas preservadas da música popular brasileira.

Embora as limitações tecnológicas da época sejam evidentes, as interpretações revelam aspectos fundamentais do estilo dos primeiros chorões, incluindo o fraseado, a condução rítmica e a ornamentação melódica que mais tarde seriam aperfeiçoados por músicos como Pixinguinha.

A Banda da Casa Edison

A Banda da Casa Edison desempenhou papel fundamental na consolidação do catálogo fonográfico brasileiro.

Funcionando como uma verdadeira banda de estúdio, o conjunto participou de centenas de gravações destinadas ao mercado nascente dos discos.

Seu repertório era extremamente variado, incluindo:

  • choros;
  • polcas;
  • dobrados;
  • maxixes;
  • tangos brasileiros;
  • valsas;
  • hinos;
  • marchas.

Em muitos casos, seus músicos também integravam outras importantes corporações musicais da época.

A influência de Anacleto de Medeiros

Outro nome indispensável para compreender esse período é o maestro Anacleto de Medeiros.

À frente da lendária Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, Anacleto elevou o nível artístico das bandas brasileiras e contribuiu decisivamente para a valorização da música popular instrumental.

Embora “Choro do Calado” tenha sido gravado pela Banda da Casa Edison, o ambiente musical daquele período era profundamente influenciado pelas inovações promovidas por Anacleto, cuja atuação ajudou a estabelecer um padrão de excelência para as gravações realizadas no início do século XX.

Um documento sonoro de valor inestimável

Hoje, ouvir “Choro do Calado” significa viajar para um momento em que o Brasil ainda dava seus primeiros passos na indústria fonográfica.

Cada ruído presente na gravação, cada limitação técnica e cada detalhe interpretativo revelam um pouco da realidade musical existente antes mesmo da popularização do rádio.

Por isso, a obra possui enorme importância não apenas para os apreciadores do choro, mas também para historiadores, musicólogos e pesquisadores interessados na evolução da música popular brasileira.

Ela constitui um raro documento sonoro capaz de preservar práticas interpretativas que, de outra forma, provavelmente teriam desaparecido com o tempo.

Onde ouvir “Choro do Calado” atualmente

Felizmente, essas gravações históricas foram restauradas e disponibilizadas ao público por meio do projeto Memórias Musicais – Casa Edison.

Fruto de um importante trabalho de preservação realizado pelo Instituto Moreira Salles em parceria com a gravadora Biscoito Fino, a coleção reúne registros fundamentais produzidos entre o início do século XX e as décadas seguintes.

“Choro do Calado” integra o volume dedicado às gravações do selo Zon-O-Phone, permitindo que novas gerações conheçam uma das mais antigas manifestações registradas do choro brasileiro.

Além do valor histórico, a restauração possibilita apreciar detalhes musicais antes praticamente inaudíveis, oferecendo uma experiência muito mais próxima da sonoridade original.

Um legado que atravessa gerações

Mais de um século após sua gravação, “Choro do Calado” continua sendo uma peça essencial para compreender as origens da música instrumental brasileira.

Embora não possua a fama de obras compostas por Pixinguinha, Ernesto Nazareth ou Jacob do Bandolim, sua importância histórica é talvez ainda maior: trata-se de um registro realizado quando o choro ainda estava construindo sua identidade.

Nesse sentido, a gravação funciona como uma verdadeira cápsula do tempo, preservando a estética musical desenvolvida por Joaquim Calado e seus contemporâneos.

Graças ao trabalho de instituições dedicadas à preservação do patrimônio sonoro brasileiro, essa joia da discografia nacional permanece acessível ao público, permitindo que pesquisadores, músicos e admiradores do choro compreendam melhor as raízes de um gênero que se tornaria um dos maiores símbolos da cultura musical do Brasil.