A música “Não Me Aborreça”, interpretada pela Banda da Casa Edison, ocupa um lugar de destaque na história da música brasileira. Gravada em 1903, a obra representa um dos mais antigos registros fonográficos produzidos no Brasil e testemunha o nascimento da indústria da gravação no país. Mais do que uma simples polca instrumental, a faixa simboliza um momento decisivo da cultura brasileira, quando a tecnologia de gravação começava a transformar a forma como a música era preservada, comercializada e difundida.
Embora hoje seja conhecida principalmente por pesquisadores, historiadores e colecionadores de discos antigos, “Não Me Aborreça” é um documento sonoro de enorme relevância. Sua gravação permite compreender como era a produção musical brasileira no início do século XX e evidencia o papel fundamental da Casa Edison na consolidação da indústria fonográfica nacional.
A gravação de “Não Me Aborreça”
Registrada em 1903, “Não Me Aborreça” foi lançada originalmente em disco de 78 rotações por minuto (RPM) pelo selo Zon-o-phone, sob o catálogo X-672. Na época, as gravações ainda eram realizadas por meio do processo mecânico, sem o uso de microfones ou recursos de edição.
Os músicos precisavam se posicionar estrategicamente diante de uma grande corneta acústica, responsável por captar o som e transmiti-lo diretamente para uma agulha que gravava as vibrações em um disco matriz. Isso exigia extrema precisão dos instrumentistas, já que qualquer erro obrigava a realização de uma nova gravação desde o início.
Embora diversas fontes tenham atribuído a autoria da composição como anônima, pesquisas posteriores identificam Francisco Dias Lemos como o autor da polca. Essa atualização histórica demonstra como o estudo da música brasileira continua revelando informações importantes sobre os pioneiros da nossa produção musical.
A Banda da Casa Edison
A Banda da Casa Edison não era exatamente uma banda fixa nos moldes atuais. Na realidade, tratava-se de um conjunto de músicos contratado especialmente para realizar gravações comerciais destinadas ao catálogo da gravadora.
Esses músicos registravam diversos gêneros populares da época, como:
- polcas;
- dobrados;
- valsas;
- schottisches;
- quadrilhas;
- mazurcas;
- maxixes;
- marchas.
Seu trabalho foi essencial para documentar o repertório instrumental brasileiro em uma época em que praticamente não existiam registros sonoros permanentes.
Graças a essas gravações, é possível conhecer parte significativa da sonoridade que animava teatros, salões, festas populares e bandas militares durante os primeiros anos da República.
A importância da Casa Edison
É impossível falar de “Não Me Aborreça” sem destacar a importância histórica da Casa Edison.
Fundada no Rio de Janeiro pelo empresário tcheco naturalizado brasileiro Fred Figner, a empresa foi pioneira na comercialização de fonógrafos, cilindros e discos no Brasil.
No início do século XX, a Casa Edison tornou-se a primeira gravadora comercial brasileira, estabelecendo um mercado organizado para a gravação e venda de música nacional.
Além de registrar bandas instrumentais, a empresa também gravou alguns dos maiores nomes da música brasileira da época, contribuindo para preservar manifestações musicais que, de outra forma, teriam se perdido.
Entre os diversos estilos registrados estavam:
Esse trabalho pioneiro foi decisivo para a formação da memória musical brasileira.
O sucesso da polca no Brasil
No final do século XIX e início do século XX, a polca figurava entre os gêneros musicais mais populares do país.
Originária da Europa Central, ela chegou ao Brasil durante o século XIX e rapidamente foi incorporada ao repertório dos músicos brasileiros.
Com o passar do tempo, a polca ganhou características próprias, aproximando-se do choro e incorporando elementos rítmicos nacionais.
Diversos compositores brasileiros utilizaram a polca como base para suas obras, contribuindo para o desenvolvimento da música urbana brasileira.
“Não Me Aborreça” representa justamente essa fase de adaptação, quando ritmos europeus começavam a dialogar com a identidade musical brasileira.
Como eram feitas as gravações em 1903
As gravações realizadas em 1903 eram totalmente acústicas.
Não existiam microfones, mesas de som, amplificadores ou qualquer recurso eletrônico.
Todo o som era captado por uma enorme corneta metálica ligada diretamente ao mecanismo gravador.
Esse método impunha várias limitações:
- duração máxima de aproximadamente dois a três minutos;
- equilíbrio sonoro obtido apenas pela posição física dos músicos;
- impossibilidade de edição;
- necessidade de executar toda a música corretamente em uma única tomada.
Essas características ajudam a explicar o estilo direto e objetivo das primeiras gravações brasileiras.
O resgate histórico da gravação
Durante décadas, muitos desses discos permaneceram restritos a colecionadores e arquivos especializados.
Felizmente, projetos de restauração sonora permitiram recuperar diversas gravações realizadas pela Casa Edison.
Em 2002, “Não Me Aborreça” foi relançada na coletânea “Memórias Musicais – Casa Edison”, disponibilizando ao público um importante fragmento da história da música brasileira.
Esse trabalho de restauração envolveu limpeza digital do áudio, redução de ruídos e recuperação da qualidade sonora possível para registros com quase um século de existência.
Graças a esse esforço, novas gerações passaram a ter acesso às primeiras gravações produzidas no Brasil.
O legado de “Não Me Aborreça”
Mais de 120 anos após sua gravação, “Não Me Aborreça” permanece como um documento histórico de enorme valor.
Sua importância ultrapassa o aspecto artístico.
Ela representa:
- o nascimento da indústria fonográfica brasileira;
- a preservação dos primeiros repertórios populares gravados;
- o desenvolvimento tecnológico da gravação sonora;
- o trabalho pioneiro da Casa Edison;
- a consolidação da música brasileira como produto cultural registrado em disco.
Cada audição da faixa oferece uma verdadeira viagem ao Brasil do início do século XX, permitindo ouvir praticamente o mesmo som que encantava os ouvintes da época.
Para pesquisadores da história da música, colecionadores e admiradores da cultura brasileira, a gravação constitui uma fonte documental de valor inestimável.
Detalhes históricos da gravação
Título: Não Me Aborreça
Gênero: Polca
Autor: Francisco Dias Lemos (durante muitos anos atribuído como autor anônimo em algumas compilações)
Intérprete: Banda da Casa Edison
Ano da gravação: 1903
Gravadora original: Zon-o-phone
Formato original: Disco de 78 RPM
Número de catálogo: X-672
Relançamento: Coletânea Memórias Musicais – Casa Edison (2002)
“Não Me Aborreça” é muito mais do que uma antiga gravação instrumental. Trata-se de um patrimônio da música brasileira e de um dos registros fonográficos mais importantes do início do século XX. A obra evidencia o pioneirismo da Casa Edison, o talento dos músicos que participaram das primeiras sessões de gravação e a importância de preservar a memória sonora do país.
Ao sobreviver por mais de um século e ser restaurada para as gerações atuais, a gravação reafirma seu papel como testemunho da evolução da música popular brasileira. Conhecer “Não Me Aborreça” significa compreender as origens da indústria fonográfica nacional e valorizar um capítulo fundamental da história cultural do Brasil.