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Arctic Monkeys em AM: Ambição Sonora ou Perda de Direção?

Os Arctic Monkeys sempre foram mestres em reinventar o rock alternativo moderno. Desde o explosivo álbum de estreia Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (2006), que capturou o caos urbano da juventude britânica, a banda estabeleceu um padrão de inovação e identidade sonora que poucos grupos contemporâneos conseguiram acompanhar. Não à toa, a expectativa por seus lançamentos é sempre colossal.

Foi com essa mesma antecipação que o público recebeu AM em setembro de 2013, o quinto álbum de estúdio do grupo liderado por Alex Turner. A promessa era ousada: unir influências díspares que vão do rock psicodélico ao R&B, passando pelo blues rock, stoner rocke até ecos de hip hop. Turner chegou a citar nomes como Black Sabbath, Aaliyah e Dr. Dre como inspirações para a obra. No entanto, apesar de toda a ambição, AM acaba tropeçando em sua própria tentativa de coesão, entregando uma coleção de faixas com momentos interessantes, mas um tanto repetitivas e carentes de uma narrativa sonora mais marcante.

Uma Abertura Promissora: Entre o Groove e a Melancolia

O álbum abre com “Do I Wanna Know?”, uma faixa que se tornou um dos maiores hits da banda. O riff sedutor e o ritmo cadenciado trazem uma atmosfera quase hipnótica, combinando a sensualidade do blues com uma estética minimalista de rock alternativo. Contudo, a faixa é surpreendentemente contida para uma abertura de álbum, deixando uma sensação de que falta aquele impacto energético que os Arctic Monkeys outrora dominavam tão bem.

Na sequência, “R U Mine?” eleva o ritmo e entrega o momento mais explosivo de AM. Aqui, a banda incorpora influências do stoner rock — gênero que bebe na fonte de grupos como Queens of the Stone Age. Não por acaso, Josh Homme (líder do QOTSA) colabora nos bastidores do álbum e até faz participações pontuais. Com um peso instrumental vibrante, a faixa soa como uma promessa de que o álbum ainda vai alcançar seu auge.

Infelizmente, essa energia logo se dissipa.

Altos e Baixos no Meio do Caminho

“One For The Road” é a primeira grande tentativa de mistura entre o pop e o rock mais robusto. Os vocais de apoio de Josh Homme adicionam textura, mas a falta de variação torna a faixa cansativa. Por outro lado, “Arabella” oferece um alívio bem-vindo: sua guitarra distorcida e suja remete diretamente à era Black Sabbath, com um groove irresistível que equilibra peso e melodia. É um dos momentos mais consistentes do álbum.

O mesmo, porém, não pode ser dito de “I Want It All”. Apesar de apostar em elementos clássicos do rock, como palmas e falsetes, a música não consegue escapar da sombra de influências evidentes como Queens of the Stone Age.

A calmaria se intensifica com “No. 1 Party Anthem” e “Mad Sounds”, ambas incorporando um quê de psicodelia e texturas mais leves com teclados e violões. Embora interessantes, essas faixas reforçam uma estrutura já previsível dentro do álbum: um padrão calmo que raramente é quebrado. Turner aqui parece mais focado em capturar uma estética suave e madura do que em oferecer algo realmente surpreendente.

Picos e Frustrações no Terço Final

Na reta final do álbum, algumas músicas trazem lampejos de originalidade, mas não o suficiente para elevar AM.

“Fireside”, por exemplo, flerta com o folk e destaca-se pelos teclados atmosféricos. Já “Why’d You Only Call Me When You’re High?” emerge como um dos singles mais expressivos do disco. A interpretação vocal de Alex Turner brilha aqui, trazendo uma sensualidade sombria que complementa perfeitamente a sonoridade minimalista e ritmada da faixa.

Por outro lado, “Snap Out Of It” apresenta uma batida cativante, mas não oferece nada além de uma estrutura repetitiva. Quando o álbum chega a “Knee Socks” — novamente com Homme nos vocais — a atmosfera relaxada se estende, quase se arrastando, sem oferecer um clímax satisfatório.

O encerramento com “I Wanna Be Yours” soa como uma tentativa de criar um final introspectivo e poético, mas acaba parecendo descartável. A faixa carece da emoção visceral que poderia redimir os momentos mais monótonos do disco.

A Falta de Uma Identidade Clara

Embora AM tenha sido elogiado por muitos críticos na época de seu lançamento, o álbum falha em entregar uma identidade sonora sólida. As influências são vastas, o que poderia ser um ponto forte, mas acabam funcionando mais como uma colcha de retalhos desconexa do que como uma fusão coerente.

Alex Turner e companhia demonstram talento inquestionável ao navegar por gêneros como R&B, rock psicodélico e stoner rock, mas a execução muitas vezes soa superficial e repetitiva. A impressão que fica é que a banda tentou demais se distanciar de suas raízes energéticas dos dois primeiros álbuns, mas sem encontrar uma nova direção genuína e inspiradora.

Conclusão: Um Álbum para Fãs ou Iniciantes?

Apesar de conter momentos brilhantes, AM está longe de ser o ponto mais alto da discografia dos Arctic Monkeys. Enquanto faixas como “R U Mine?”, “Arabella” e “Why’d You Only Call Me When You’re High?” se destacam, grande parte do álbum parece preso a uma fórmula repetitiva que nunca alcança seu potencial máximo.

Para fãs dedicados da banda, AM pode oferecer uma experiência satisfatória, mas para novos ouvintes, ele dificilmente será um ponto de partida ideal. A estreia explosiva de 2006, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, continua sendo a verdadeira referência da genialidade criativa do quarteto britânico.

Se AM prova alguma coisa, é que ambição sem coesão pode, às vezes, resultar em um álbum bonito, mas vazio.

 

Ouça o maior sucesso do Arctic Monkeys: