Sabe aquele velho clichê do “não lembro onde estava quando ouvi pela primeira vez tal música”? Pois é. Eu genuinamente não faço ideia de quando ouvi Village People pela primeira vez. Talvez tenha sido numa festinha escolar, num casamento, numa matinê meio brega ou — sejamos honestos — talvez tenha sido só através daquele episódio dos Simpsons com o “Nacho Man”. Não foi um momento transformador, nem uma epifania sônica. Foi… só aconteceu. Mas aqui está a questão desconfortável: esse tipo de memória parece coletiva. Todo mundo da minha geração provavelmente tem uma lembrança meio falsa de onde conheceu o som deles. Afinal, os hits do Village People não são apenas músicas — são parte do tecido sonoro da cultura pop.
E olha, é hilário pensar nisso, porque — sejamos francos — o Village People não é exatamente sobre trilhas sonoras de casamentos heteronormativos. A estética é homoerótica no volume máximo, com uma camada tão fina de ironia hetero que você poderia atravessar com um sopro. Policiais de fantasia, motociclistas de couro, índios (sim, altamente problemático), operários suados… Uma verdadeira parada fetichista homo-masculina disfarçada de entretenimento familiar. E, no entanto, eles não são apenas gays. Eles são quase… pornográficos. Só que em versão acessível para a TV aberta dos anos 70.
Agora, claro, existe uma piada interna nesse excesso. “YMCA”, possivelmente o hino mais famoso do grupo, é uma ode — nada sutil — às saunas, às academias e, bem, aos encontros casuais entre homens. E no entanto, veja só, décadas depois, a música virou trilha de campanha de Donald Trump. Se isso não é a ironia mais distorcida da história da cultura pop, eu não sei o que é.
Por muito tempo, fiz exatamente aquilo que a maioria dos aspirantes a crítico musical faz: ignorei. Porque, honestamente, quem quer ser visto curtindo Village People de verdade? Aquela estética cafona, aquele som meio plástico, aquele refrão que parece ter sido criado para ser cantado por um bando de tios bêbados em uma formatura. É o tipo de música que você consome ironicamente… ou finge que não consome.
Só que aí… o algoritmo. Sim, sempre o algoritmo. Estava eu ali, tranquilamente ouvindo Patrick Cowley — pioneiro da disco gay underground, compositor de trilhas sonoras para filmes pornôs dos anos 80 (e, sim, você leu isso certo) —, quando, de repente, o Spotify decide que, depois de Cowley, o natural seria me jogar “Macho Man” na sequência. A audácia. O atrevimento. E, sejamos honestos, a genialidade.
A bateria começa. “Tssh-tssh-tssh, tssh-tssh-tssh”. Simples. Direta. E impossível de ignorar. Meu quadril se mexe antes mesmo de eu perceber. E então vem o refrão, aquele refrão. Uma muralha sonora construída para ser cantada a plenos pulmões em qualquer estádio, festa ou pista de dança minimamente bêbada.
Só que aqui vem a surpresa: depois da terceira, quarta, quinta execução, percebi algo que não esperava. Atrás do verniz cafona, da produção inflada e dos vocais em coro, existe… algo. Um senso de comunidade. De pertencimento. E — acredite se quiser — de política.
Foi assim que me vi, contra todas as minhas intenções, mergulhado na discografia do Village People. E, ok, sejamos justos: os três primeiros álbuns — Village People (1977), Macho Man (1978) e Cruisin’ (1978) — são absolutamente sólidos. Depois disso, é uma ladeira abaixo, culminando no desastre cinematográfico que foi Can’t Stop the Music(1980). Mas esses primeiros trabalhos? Cara… existe algo ali.
Por trás da fantasia: a política do glitter
Para entender o Village People, você precisa entender o contexto. A disco dos anos 70 não era apenas sobre batidas dançantes e roupas espalhafatosas. Era, como define Peter Shapiro no clássico Turn the Beat Around: The Secret History of Disco, “a trilha sonora do prazer como resistência”. A disco foi, sim, uma resposta cultural ao armário, às batidas policiais e à opressão institucional contra a comunidade LGBTQ+.
Mas aqui está o dilema: enquanto muitos artistas disco flertavam com uma estética queer, poucos eram tão descarados quanto o Village People. E, paradoxalmente, foram justamente eles que conseguiram furar a bolha do mainstream.
Jacques Morali, o produtor francês que idealizou o grupo, deixou isso bem claro em entrevista de 1978 à Rolling Stone. “Os gays não têm um grupo. Ninguém para representá-los”, declarou. E assim nasceu a ideia de transformar os estereótipos homoeróticos em super-heróis da disco.
O primeiro álbum é quase um mapa turístico da cultura gay dos EUA. San Francisco (You’ve Got Me) é uma ode à cidade como meca queer. Fire Island celebra, sem o menor pudor, o famoso refúgio gay de Nova York, com direito a menções explícitas a bares, clubes e, bem, possibilidades infinitas de encontros. In Hollywood (Everybody is a Star)imagina Los Angeles como uma utopia onde todos — inclusive gays marginalizados — podem ser estrelas.
E então tem Village People, a faixa-título. Um verdadeiro manifesto queer mascarado de hit pop. É uma convocação: “Tomem seu lugar ao sol. Sejam livres. Sejam tudo por um.” Se isso não é política, não sei o que é.
O dilema da autenticidade
Claro, existe um elefante (ou talvez um cowboy de sunga) na sala. O grupo, depois de alcançar o sucesso, claramente abraçou o mainstream e suavizou boa parte da mensagem inicial. O filme Can’t Stop the Music é um exemplo desconfortável disso: uma tentativa constrangedora de transformar subcultura queer em comédia familiar — sem sexo, sem política, só glitter e piadas ruins.
É fácil — e até justo — acusá-los de oportunismo. Afinal, a indústria da música é assim: capitaliza qualquer coisa que dê lucro, inclusive a cultura queer. Mas aqui vai um contraponto: mesmo que o Village People tenha diluído sua mensagem com o tempo, o impacto inicial foi real. E, convenhamos, nos anos 70, colocar homens vestidos de policial, índio e motociclista dançando juntos na TV americana era, por si só, uma declaração política.
Por que isso ainda importa?
Quatro décadas depois, o Village People continua sendo um espelho desconfortável. Eles são, ao mesmo tempo, uma caricatura e uma celebração. Uma piada e um hino. Eles representam tanto a superficialidade da cultura pop quanto sua capacidade de transmitir mensagens subversivas — às vezes, sem que o próprio público perceba.
E para quem é queer — e, sinceramente, para qualquer um que já se sentiu à margem —, há algo profundamente poderoso em ouvir essas músicas. Saber que, em 1978, existia um grupo que, por mais cafona que fosse, estava disposto a cantar sobre liberdade, prazer e comunidade de um jeito que nem todo o roqueiro hétero do planeta jamais ousaria.
No fim das contas, talvez seja por isso que, toda vez que ouço “Village People” ou “San Francisco (You’ve Got Me)”, me pego imaginando aqueles clubes pulsantes, corpos entrelaçados, suor, glitter, liberdade. É uma ponte para o passado — e, de certo modo, um lembrete do que ainda precisa ser conquistado.
E se alguém vier me julgar por isso? Bom… como já dizia Lady Gaga (e, antes dela, Carl Bean): “I was born this way”.