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Argonautha – Música e Cultura Pop

Itararé: a polca de Chiquinha Gonzaga que marcou a história da música brasileira

Poucos compositores exerceram influência tão profunda sobre a música popular brasileira quanto Chiquinha Gonzaga. Pianista, maestrina, compositora e uma das maiores personalidades da cultura nacional, ela foi responsável por transformar a música urbana do final do século XIX, rompendo barreiras sociais e artísticas em uma época em que as mulheres encontravam enormes obstáculos para atuar profissionalmente na vida cultural do país. Entre as dezenas de obras que deixaram sua marca na história está “Itararé”, uma elegante polca instrumental composta por volta de 1897, que permanece como um importante testemunho da riqueza musical daquele período.

Embora não seja tão conhecida pelo grande público quanto clássicos como Ó Abre Alas, Itararé ocupa uma posição de destaque na história da música brasileira por reunir qualidades musicais refinadas e, sobretudo, por fazer parte das primeiras gravações comerciais realizadas no Brasil. Dessa forma, sua importância ultrapassa o valor artístico da composição e alcança também um enorme significado histórico para a discografia nacional.

Chiquinha Gonzaga e a renovação da música popular

No final do século XIX, a música brasileira vivia um intenso processo de transformação. Ritmos europeus, como a polca, a valsa e a mazurca, conviviam com elementos africanos e brasileiros, dando origem a uma linguagem musical genuinamente nacional. Nesse ambiente fértil surgiu Chiquinha Gonzaga, cuja produção ajudou a consolidar uma identidade própria para a música urbana do Rio de Janeiro.

Além de sua extraordinária capacidade como compositora, Chiquinha destacou-se por romper convenções sociais. Foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, enfrentou preconceitos ao construir uma carreira independente e tornou-se referência para diversas gerações de músicos. Sua obra atravessa diferentes gêneros, incluindo polcas, tangos brasileiros, valsas, maxixes e músicas para o teatro de revista.

É justamente dentro desse universo criativo que nasce Itararé, uma composição que demonstra sua habilidade em transformar uma dança europeia em uma peça carregada de personalidade brasileira.

A história da polca Itararé

Composta aproximadamente em 1897, Itararé apresenta todas as características que fizeram da polca um dos gêneros mais populares do Brasil durante o século XIX. A escrita pianística elegante, o ritmo leve e a construção melódica sofisticada revelam uma compositora em plena maturidade artística.

A partitura original traz uma curiosa dedicatória:

“Aos Srs. Drs. Gonçalves e Amaral, proprietários do valente Itararé.”

Esse detalhe evidencia uma prática comum da época, quando compositores dedicavam obras a amigos, empresários, políticos ou figuras influentes como forma de homenagem ou reconhecimento. Embora nem sempre seja possível identificar todos os personagens citados nas dedicatórias, esses registros ajudam a compreender as redes sociais e culturais que cercavam a produção musical brasileira do período.

Musicalmente, Itararé representa uma fase em que Chiquinha Gonzaga explorava com grande naturalidade o diálogo entre o repertório europeu e a musicalidade popular carioca, antecipando caminhos que mais tarde influenciariam o nascimento do choro e de outros gêneros instrumentais brasileiros.

A histórica gravação da Banda do Corpo de Bombeiros

A relevância de Itararé cresceu significativamente quando a obra foi registrada pela lendária Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, em gravação realizada entre 1904 e 1907 para a gravadora Odeon.

Esse registro pertence aos primeiros anos da indústria fonográfica brasileira, período em que o país começava a construir sua memória sonora por meio dos discos de 78 rotações. As limitações tecnológicas da época exigiam que os músicos executassem as peças praticamente em uma única tomada, diretamente diante do equipamento de gravação mecânica, sem qualquer possibilidade de edição.

Por esse motivo, cada gravação realizada nesse período possui um valor documental extraordinário, preservando interpretações que representam fielmente a prática musical do início do século XX.

Além disso, o registro de Itararé demonstra como as obras de Chiquinha Gonzaga já circulavam amplamente entre os principais conjuntos instrumentais brasileiros, consolidando seu prestígio ainda em vida.

A importância da Banda do Corpo de Bombeiros

Grande parte desse sucesso deve-se ao extraordinário trabalho da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, considerada o mais importante conjunto de sopros do Brasil nas primeiras décadas do século XX.

Sob a direção do consagrado maestro Anacleto de Medeiros, a banda atingiu um nível artístico raramente visto na época. Seus músicos possuíam elevado preparo técnico e participaram intensamente das primeiras gravações comerciais brasileiras, registrando centenas de polcas, dobrados, maxixes, valsas, tangos brasileiros e outras composições que hoje constituem um patrimônio inestimável da música nacional.

Mais do que uma simples corporação militar, a banda desempenhou papel fundamental na difusão da música popular brasileira, aproximando repertórios eruditos e populares e contribuindo para a consolidação da nascente indústria fonográfica.

Não é exagero afirmar que boa parte do que hoje conhecemos sobre a interpretação instrumental brasileira do início do século XX chegou aos nossos dias graças ao trabalho desenvolvido por Anacleto de Medeiros e seus músicos.

Uma obra que atravessou gerações

Ao contrário do que acontece com muitas composições instrumentais do século XIX, Itararé permaneceu viva ao longo das décadas graças ao interesse de intérpretes dedicados à preservação da obra de Chiquinha Gonzaga.

Em 1997, a pianista Rosária Gatti, acompanhada pelo Grupo Nosso Choro, realizou uma nova gravação da composição, resgatando sua escrita original e apresentando a obra a um novo público interessado na música instrumental brasileira.

No ano seguinte, em 1998, a composição recebeu versos escritos pelo poeta Hermínio Bello de Carvalho, transformando-se também em canção na interpretação sensível da cantora Olívia Hime. Essa adaptação demonstra a riqueza melódica da peça, capaz de acolher uma nova dimensão poética sem perder sua identidade instrumental.

Posteriormente, em 2010, a pianista Ana Fridman apresentou uma releitura contemporânea da obra, explorando novas possibilidades interpretativas ao piano e reafirmando a permanente atualidade da escrita musical de Chiquinha Gonzaga.

Essas sucessivas releituras evidenciam como uma composição criada no século XIX continua despertando interesse artístico mais de cem anos depois de sua criação.

O legado de Itararé para a música brasileira

Analisar Itararé apenas como uma polca seria reduzir sua verdadeira importância. A obra representa um momento decisivo da história cultural brasileira, quando compositores nacionais começavam a construir uma linguagem própria, ao mesmo tempo em que a gravação sonora iniciava sua trajetória no país.

Além disso, a composição simboliza o protagonismo feminino em um ambiente predominantemente masculino. Chiquinha Gonzaga não apenas escreveu música de altíssimo nível, mas também abriu caminhos para inúmeras mulheres compositoras, regentes e instrumentistas que viriam nas décadas seguintes.

Sob uma perspectiva crítica, chama a atenção o fato de que parte significativa da produção instrumental de Chiquinha Gonzaga ainda permanece menos conhecida do que suas obras mais populares. Isso revela uma tendência recorrente da historiografia musical brasileira: privilegiar os grandes sucessos em detrimento de um catálogo muito mais amplo e sofisticado.

Felizmente, iniciativas de preservação vêm contribuindo para mudar esse cenário, permitindo que pesquisadores, músicos e o público redescubram peças fundamentais como Itararé.

O Acervo Digital Chiquinha Gonzaga

Atualmente, Itararé pode ser consultada por meio do Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, iniciativa que reúne partituras, registros históricos, informações catalográficas e dados sobre gravações da compositora.

Esse acervo tornou-se uma ferramenta indispensável para pesquisadores, estudantes e admiradores da música brasileira, contribuindo para preservar um patrimônio artístico que continua influenciando músicos até os dias atuais.

Mais do que manter viva a memória de Chiquinha Gonzaga, o projeto evidencia a dimensão de seu legado e reforça sua posição como uma das figuras mais importantes da história da música brasileira.

Uma joia da discografia brasileira

Mais de um século após sua criação, Itararé continua sendo um exemplo da extraordinária capacidade criativa de Chiquinha Gonzaga. A obra reúne refinamento melódico, elegância rítmica e enorme relevância histórica, sobretudo por integrar o conjunto das primeiras gravações da indústria fonográfica nacional.

Seu percurso — da composição em 1897 às releituras contemporâneas — demonstra que grandes obras sobrevivem ao tempo justamente porque conseguem dialogar com diferentes gerações. Nesse sentido, Itararé permanece não apenas como uma bela polca, mas como um documento sonoro essencial para compreender a formação da música popular brasileira e o extraordinário legado deixado por uma das maiores compositoras do país.