Entre as primeiras gravações da música brasileira, poucas possuem valor histórico tão expressivo quanto “Está Se Coando”, composição do maestro Anacleto de Medeiros registrada em 1903 pela Banda da Casa Edison. Muito mais do que um simples choro instrumental, a obra representa um momento decisivo da cultura nacional: o nascimento da indústria fonográfica brasileira e a consolidação do choro como uma das primeiras linguagens musicais autenticamente urbanas do país.
Embora hoje seja menos conhecida do grande público do que obras de compositores como Pixinguinha, Ernesto Nazareth ou Jacob do Bandolim, “Está Se Coando” ocupa uma posição privilegiada na história da música brasileira. Sua gravação preserva um período em que a tecnologia ainda era rudimentar, mas já começava a transformar profundamente a maneira como a música era produzida, distribuída e consumida.
Ouvir essa composição atualmente significa fazer uma verdadeira viagem ao Rio de Janeiro da Belle Époque, quando bandas de sopro animavam praças públicas, coretos, festas populares e cerimônias oficiais, criando a trilha sonora de uma cidade em plena transformação.
O nascimento do choro brasileiro
Para compreender a importância de “Está Se Coando”, é necessário entender o contexto em que o choro surgiu.
Na segunda metade do século XIX, músicos cariocas passaram a interpretar gêneros europeus — como polcas, valsas, schottisches e mazurcas — utilizando uma linguagem cada vez mais brasileira. A combinação entre ritmos africanos, harmonias europeias e liberdade interpretativa deu origem ao choro, considerado por muitos pesquisadores o primeiro gênero musical urbano genuinamente brasileiro.
Ao contrário do que o nome pode sugerir, o choro não se caracteriza necessariamente por um caráter melancólico. Desde sua origem, o gênero reuniu peças alegres, virtuosísticas, dançantes e repletas de improvisação, valorizando o diálogo entre os instrumentistas.
Nesse ambiente fértil, surgiram alguns dos maiores compositores da música brasileira, entre eles Anacleto de Medeiros.
Anacleto de Medeiros: um arquiteto da música popular
Falar sobre “Está Se Coando” é, inevitavelmente, falar sobre Anacleto de Medeiros.
Nascido em 1866, no Rio de Janeiro, Anacleto destacou-se como maestro, compositor e um dos grandes responsáveis pela modernização das bandas de música brasileiras.
Embora muitas vezes seja lembrado apenas como regente da famosa Banda do Corpo de Bombeiros, sua influência foi muito além dessa instituição.
Ele elevou o padrão técnico das bandas civis e militares, desenvolvendo arranjos sofisticados que aproximavam a música popular da qualidade artística encontrada nas grandes formações europeias.
Ao mesmo tempo, Anacleto nunca abandonou a musicalidade brasileira.
Suas composições revelam extraordinária capacidade de unir elegância harmônica, riqueza melódica e forte apelo popular, características que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento do choro.
O significado de “Está Se Coando”
Embora não seja uma das obras mais frequentemente executadas atualmente, “Está Se Coando” sintetiza muitas das qualidades presentes na produção de Anacleto de Medeiros.
A composição evidencia o refinamento melódico típico do choro da virada do século XIX para o XX.
Ao mesmo tempo, sua instrumentação destaca o protagonismo das bandas de sopro, formação extremamente popular naquele período.
Enquanto hoje o choro costuma ser associado a conjuntos formados por flauta, cavaquinho e violões, no início do século XX as bandas militares e civis desempenhavam papel igualmente importante na difusão desse repertório.
Nesse contexto, “Está Se Coando” demonstra como o gênero podia assumir uma sonoridade grandiosa sem perder sua leveza característica.
A Banda da Casa Edison
A gravação histórica de “Está Se Coando” foi realizada pela Banda da Casa Edison, uma das formações mais importantes da nascente indústria fonográfica brasileira.
Criada especificamente para atender às necessidades das gravações comerciais, a banda reunia músicos altamente qualificados que registraram centenas de obras pertencentes aos mais variados gêneros.
Seu repertório incluía:
- choros;
- dobrados;
- polcas;
- valsas;
- tangos brasileiros;
- maxixes;
- hinos;
- marchas.
Na prática, a Banda da Casa Edison funcionava como um verdadeiro laboratório musical, responsável por preservar em discos parte significativa da produção brasileira da época.
Sem essas gravações, inúmeras obras teriam desaparecido completamente da memória musical nacional.
A Casa Edison e o início da indústria fonográfica brasileira
A história de “Está Se Coando” também está diretamente ligada à criação da Casa Edison.
Fundada pelo empresário tcheco Fred Figner, em 1900, no Rio de Janeiro, a empresa tornou-se a primeira gravadora do Brasil e de toda a América do Sul.
Naquele momento, gravar um disco era um processo totalmente mecânico.
Não existiam microfones, mesas de som ou qualquer tipo de edição.
Os músicos posicionavam-se diante de um grande cone metálico, cuja vibração fazia uma agulha gravar diretamente os sulcos em cilindros ou discos de cera.
Qualquer erro obrigava todos os músicos a repetir a execução desde o início.
Essa limitação técnica exigia enorme precisão interpretativa, tornando cada gravação praticamente uma apresentação ao vivo.
O selo Zon-O-Phone
“Está Se Coando” foi registrada para o selo Zon-O-Phone, marca internacional utilizada pela Casa Edison durante seus primeiros anos de atividade.
Esses discos figuram entre os documentos sonoros mais importantes da história brasileira.
Embora apresentem limitações naturais decorrentes da tecnologia disponível no início do século XX, eles preservam aspectos interpretativos impossíveis de reconstruir apenas por meio das partituras.
Fraseado, dinâmica, andamento e articulação podem ser observados diretamente nessas gravações, tornando-as fontes indispensáveis para pesquisadores da música brasileira.
A importância das bandas de sopro
Sob uma perspectiva histórica, é impossível compreender a música brasileira sem reconhecer a importância das bandas de sopro.
Muito antes do rádio, elas eram responsáveis pela principal difusão da música instrumental no país.
Coretos espalhados por praças públicas recebiam apresentações semanais que reuniam centenas de pessoas.
Além disso, essas bandas acompanhavam festas religiosas, cerimônias militares, inaugurações, eventos políticos e celebrações populares.
Anacleto de Medeiros transformou esse universo ao elevar o nível artístico dessas formações, criando arranjos que combinavam sofisticação técnica e enorme capacidade de comunicação com o público.
“Está Se Coando” é um excelente exemplo desse equilíbrio.
A preservação de um patrimônio musical
Felizmente, esse importante registro fonográfico não se perdeu com o passar do tempo.
A gravação original foi restaurada por especialistas e integra a coleção Memórias Musicais – Casa Edison, um dos mais importantes projetos de preservação do patrimônio sonoro brasileiro.
Resultado de uma parceria entre o Instituto Moreira Salles e a gravadora Biscoito Fino, o projeto recuperou centenas de gravações realizadas nas primeiras décadas da indústria fonográfica nacional.
Esse trabalho permite que pesquisadores, músicos e ouvintes tenham acesso a registros fundamentais para compreender a evolução da música brasileira.
O legado de Anacleto de Medeiros
Embora sua carreira tenha sido interrompida precocemente por sua morte em 1907, Anacleto de Medeiros deixou uma influência profunda sobre gerações posteriores.
Sua concepção musical pode ser percebida na obra de compositores como Pixinguinha, que também valorizaria o refinamento dos arranjos e a riqueza da instrumentação.
Além disso, sua atuação como maestro ajudou a consolidar um padrão de excelência que marcaria definitivamente as bandas brasileiras.
Mais do que um excelente compositor, Anacleto foi um organizador da linguagem instrumental nacional.
Um documento histórico da música brasileira
Mais de 120 anos após sua gravação, “Está Se Coando” continua sendo muito mais do que uma curiosidade para colecionadores.
Ela representa um documento histórico capaz de revelar como soava a música brasileira em seus primeiros registros fonográficos.
Cada detalhe da gravação — desde a interpretação da Banda da Casa Edison até as limitações do processo mecânico de registro — contribui para preservar uma parte fundamental da memória cultural do país.
Nesse sentido, a composição simboliza um momento único: o encontro entre tradição musical, inovação tecnológica e identidade nacional.
É justamente por isso que “Está Se Coando” permanece como uma das gravações mais importantes do início do século XX e uma referência indispensável para qualquer estudo sobre a formação da música popular brasileira.