Se você cresceu nos anos 80 ou 90, há uma boa chance de que um certo encanador bigodudo tenha feito parte da sua vida. No meu caso, essa história começa em meados da década de 1980, quando desembrulhei um presente de aniversário que parecia pura magia tecnológica: um Game & Watch portátil com o clássico de arcade Donkey Kong. Eu tinha nove anos e estava prestes a conhecer um herói que me acompanharia pelo resto da vida: Mario.
A tela de cristal líquido era simples, mas hipnotizante. Havia algo de irresistível na forma como aquele pequeno personagem monocromático escalava um canteiro de obras para salvar uma princesa. Três vidas. Controles básicos. Mas um carisma infinito. Eu não sabia naquele momento, mas estava diante de uma das maiores figuras da cultura pop mundial.
De “Ossan” a Ícone Mundial
O que muita gente não sabe é que Mario nem sempre foi “Mario”. Antes de sua estreia oficial em Donkey Kong (1981), ele tinha nomes curiosos como “Ossan” (que em japonês significa algo como “tiozão”), “Sr. Video” e “Jumpman”. O nome definitivo veio graças a uma história curiosa: ele foi batizado em homenagem a Mario Segale, dono do prédio onde ficava a sede da Nintendo nos Estados Unidos.
Seu criador, Shigeru Miyamoto, tinha um objetivo ambicioso: criar um personagem que pudesse aparecer em diferentes jogos, um pouco como Alfred Hitchcock fazia aparições rápidas em seus filmes. O design original em 8 bits já era inconfundível — um bigode grosso, um boné vermelho e um macacão azul, que além de charmosos ajudavam a compensar as limitações gráficas da época.
Quando chegou a vez de estrelar Mario Bros (1983), o personagem deixou de ser carpinteiro e virou encanador ítalo-americano — algo que fazia sentido considerando o cenário de canos e tubulações do jogo.
A Magia da Simplicidade
O sucesso de Mario não foi só questão de marketing ou design. Em entrevista à NPR em 2015, Miyamoto explicou que a jogabilidade foi pensada para despertar reações humanas universais. Quem nunca sentiu aquele frio na barriga ao pular sobre um buraco? Quem não acelerou um pouco mais para alcançar o outro lado? Essa simplicidade, combinada com controles intuitivos, criou uma conexão instantânea com os jogadores.
Super Mario Bros e a Revolução dos Games
Tudo mudou em 1985 com o lançamento de Super Mario Bros. De repente, Mario saiu de uma única tela e ganhou um mundo inteiro para explorar — repleto de campos verdes, cavernas misteriosas, castelos perigosos e cogumelos gigantes. Como descreve Steven L. Kent em The Ultimate History of Video Games, o jogo mostrou ao mundo que videogames podiam ser expansivos, coloridos e cheios de vida.
E foi aí que Mario começou a se transformar — literalmente. Com power-ups como o Super Cogumelo e a Flor de Fogo, ele podia crescer, soltar bolas de fogo e até voar em algumas de suas aventuras futuras. No decorrer dos anos, assumiu formas de tanuki (Super Mario Bros 3, 1988), abelha (Super Mario Galaxy, 2007) e gato (Super Mario 3D World, 2013).
Muito Além do Encanamento
Mario nunca ficou preso a um único gênero. Ele já foi médico (Dr. Mario, 1990), artista (Mario Paint, 1992), piloto (Mario Kart, desde 1992), jogador de futebol, tênis, golfe e até competidor olímpico ao lado de Sonic. Em Super Mario Odyssey (2017), até o seu chapéu ganhou vida própria, permitindo capturar e controlar outros personagens.
O elenco ao redor de Mario também cresceu: Luigi, seu irmão medroso; a Princesa Peach, sempre pronta para ajudar e ser ajudada; Yoshi, o companheiro dinossauro; e vilões icônicos como Bowser, Wario e o próprio Donkey Kong.
O Som que Definiu uma Geração
Parte do encanto de Mario vem de sua trilha sonora e efeitos sonoros. Desde os primeiros acordes compostos por Koji Kondo em 1985 até o famoso “It’s-a me, Mario!” de Charles Martinet, tudo nele é reconhecível. Basta ouvir o som de pegar uma moeda para que memórias de infância voltem instantaneamente.
Das Telas do Jogo para o Cinema
A transição para o cinema nem sempre foi tranquila. O filme live-action de 1993 é lembrado mais como uma curiosidade estranha do que como um sucesso. Mas em 2023, The Super Mario Bros Movie trouxe o personagem de volta aos cinemas, desta vez em animação e com a voz de Chris Pratt. Apesar de polêmicas iniciais, o resultado agradou boa parte dos fãs e apresentou Mario a uma nova geração.
Arte, Cultura e Memes
Mario não é apenas entretenimento — ele também virou arte e inspiração. Obras como Super Mario Clouds (2002), de Cory Arcangel, e projetos independentes como Syrian Super Mario mostram como o personagem pode ser reinterpretado de maneiras criativas e até políticas. Além disso, Mario vive nas redes sociais, aparecendo em memes, paródias e até contas fictícias que brincam com sua imagem.
Um Fenômeno Intergeracional
Quarenta anos depois, Mario continua unindo pais e filhos. Hoje, vejo meu próprio filho incluir brinquedos e jogos do Mario na lista de aniversário, assim como eu fazia na mesma idade. Quando jogamos Mario Kart, talvez escolhamos personagens diferentes, mas aquela sensação de familiaridade e diversão permanece a mesma.
Mario é mais que um personagem. Ele é um elo entre gerações, um símbolo de criatividade e diversão, e um lembrete de que, mesmo em um mundo acelerado e caótico, sempre há tempo para apertar “Start” e embarcar em mais uma aventura.