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Orson Welles no Brasil: A Procissão que o Cinema Quase Esqueceu

Quando falamos de Orson Welles, imediatamente pensamos no prodígio de “Cidadão Kane”, na figura do gênio que desafiou os limites da linguagem cinematográfica. Contudo, há um capítulo dessa biografia grandiosa que, por décadas, permaneceu soterrado sob as camadas do esquecimento: sua passagem pelo Brasil, mais especificamente por Ouro Preto, Minas Gerais. Uma história que se equilibra entre o mito e a realidade, entre a película e o pó do tempo.

Em 1942, em plena ebulição da Segunda Guerra Mundial, o diretor desembarcava no Rio de Janeiro para gravar It’s All True — um projeto ambicioso que fundia documentário, etnografia e elementos ficcionais. Esse filme fazia parte de uma estratégia diplomática dos Estados Unidos, a chamada “Política da Boa Vizinhança”, que buscava estreitar laços culturais com os países latino-americanos. Afinal, os EUA queriam garantir que Getúlio Vargas se mantivesse alinhado aos Aliados, em meio às tentações do Eixo.

O Brasil que Welles encontrou era pulsante, caótico, mágico. Nas ladeiras do Rio, o cineasta registrou o Carnaval — não aquele das elites, mas o da gente simples, negra, sambista, que fazia do batuque resistência e existência. Ele também acompanhou a jornada heroica dos jangadeiros cearenses, que cruzaram mais de dois mil quilômetros para exigir direitos trabalhistas diretamente ao presidente Vargas. Mas é na cidade barroca de Ouro Preto que a história ganha contornos quase místicos.

Ouro Preto: A Terra do Silêncio e dos Ecos Esquecidos

Poucos sabiam — até bem pouco tempo — que Orson Welles, com sua equipe e câmeras, subiu as ladeiras de Ouro Preto durante a Semana Santa de 1942. A intenção era captar a procissão da Sexta-Feira da Paixão, contrapondo a explosão pagã do Carnaval carioca ao recolhimento espiritual mineiro. Ouro Preto, então uma cidade melancólica, marcada pela decadência econômica após a perda do status de capital, se transformava em cenário de uma cinegrafia que mesclava fé, arte e resistência.

Por décadas, essa passagem foi tratada como lenda, boato, memória esmaecida. Até que, em 2011, a cineasta e pesquisadora ouro-pretana Laura Godoy decidiu transformar essa sombra em imagem. Movida pela memória afetiva — seu pai, Victor Godoy, memorialista da cidade, lhe contava desde criança que Welles havia filmado a procissão —, ela embarcou em uma jornada investigativa que durou anos e cruzou fronteiras.

A Redescoberta: Uma Caçada Arquivística Cinematográfica

Com o apoio da pesquisadora norte-americana Catherine Benamou — uma autoridade global sobre Welles —, Laura vasculhou hemerotecas, arquivos públicos, documentos privados, e percorreu cidades brasileiras e americanas em busca de qualquer indício. Até que, como em uma sequência de filme noir, o improvável aconteceu: nas profundezas do arquivo da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), surgiram as latas de filme esquecidas. E nelas, intactas, estavam as imagens da Semana Santa de Ouro Preto em 1942, captadas pelas lentes do mestre.

A descoberta não é apenas arqueologia cinematográfica — é um resgate da própria memória brasileira. As imagens revelam uma Ouro Preto ainda silenciosa, onde o som das matracas ecoava nas madrugadas da Paixão, e onde rostos anônimos, que talvez jamais tivessem sido fotografados, eternizaram-se na película.

O Filme Que Nunca Foi, Mas Sempre Existiu

Mas por que It’s All True jamais chegou às telas? A resposta mistura política, racismo e controle industrial. Welles, com sua visão humanista, recusou-se a produzir um filme exotizante, superficial. Voltou suas câmeras para as favelas, para os blocos afro, para os corpos negros que sambavam, suavam e resistiam. Isso incomodou profundamente tanto a RKO quanto o Escritório do Coordenador dos Assuntos Interamericanos (OCIAA), comandado por Nelson Rockefeller.

Os telegramas trocados entre a produção e os financiadores beiravam a espionagem descarada. As críticas internas apontavam que Welles estava fugindo do roteiro esperado — aquele que vendia uma América Latina folclórica, alegre e subserviente. E assim, a pressão aumentou até que o filme foi abruptamente cancelado. As imagens, espalhadas entre arquivos, estúdios e depósitos, se perderam no tempo. Algumas reapareceram no documentário It’s All True (1993), mas nada, absolutamente nada, da passagem por Ouro Preto.

Ouro Preto na Lente do Gênio

As imagens encontradas na UCLA são de uma beleza perturbadora. Elas mostram não apenas a arquitetura colonial ou os ritos religiosos, mas, sobretudo, as pessoas. Gente simples, com olhares que atravessam o tempo, carregando andores, velas e suas próprias histórias. A lente de Welles não era de um turista, mas de alguém que tentava compreender a alma daquele povo, daquele lugar.

É um registro que dialoga diretamente com a estética do neorrealismo, antecipando escolhas que o diretor faria em filmes posteriores como Otelo (1951), Mr. Arkadin (1955) e Touch of Evil (1958). É também o momento em que Welles rompe, definitivamente, com o sistema de estúdios de Hollywood e se assume como cineasta independente.

A Maldição que Virou Benção

Por anos, a narrativa dominante dizia que o fracasso de It’s All True lançou sobre Welles uma espécie de “maldição brasileira”. Ele próprio alimentava essa história, dizendo que um pai de santo teria furado o roteiro do filme com uma caneta, selando sua sina de obras inacabadas.

Mas hoje, pesquisadores como Josafá Veloso e Catherine Benamou desconstroem essa visão. Para eles — e também para Laura Godoy —, não houve maldição. Houve reinvenção. O Orson Welles que saiu do Brasil já não era mais o jovem prodígio dos estúdios, e sim um cineasta que entendera que o cinema poderia ser liberdade, resistência e poesia.

Welles na Terra do Silêncio: O Filme que Está por Vir

Laura Godoy, ao lado do também ouro-pretano João Dumans, está finalizando o documentário Welles na Terra do Silêncio, com previsão de lançamento para 2026. O filme não é apenas sobre Orson Welles em Ouro Preto — é sobre memória, apagamento, resistência e reencontro. As negociações com a Paramount, atual detentora dos direitos das imagens, seguem em andamento.

Se tudo der certo, o público verá não apenas registros de uma cidade e de um país, mas também de um momento-chave na trajetória de um dos maiores gênios da história do cinema mundial. Um momento em que o Brasil, suas dores e belezas, atravessou definitivamente a vida de Orson Welles.

Epílogo: O Samba Nunca Saiu do Pé

O historiador Josafá Veloso conta que, segundo a viúva de Welles, Oja Kodar, mesmo nas fases mais sombrias de sua vida, quando tudo parecia perdido, o cineasta ainda sambava. O samba, que ele aprendeu nas ladeiras do Rio, no batuque das vielas, nas noites quentes do Brasil, nunca mais saiu dele.

Orson Welles pode não ter terminado It’s All True, mas a verdade é que o Brasil terminou Orson Welles. E isso, definitivamente, não cabe em nenhum roteiro.