Se existe uma coisa que sempre digo quando falo de música — e aqui vou entrar totalmente no modo análise crítica — é que algumas canções envelhecem como leite. Outras envelhecem como vinho. E, sinceramente, “Televisão” dos Titãs é daquelas faixas que parecem ter ficado mais relevantes com o tempo.
Estamos falando de uma música lançada em 1985, mas que poderia muito bem ser escrita hoje, numa era dominada por redes sociais, algoritmos e fluxos intermináveis de informação. Antes de tudo, vale lembrar o contexto: a canção faz parte do álbum Televisão, o segundo disco da banda, lançado em 19 de junho de 1985 pela gravadora Warner Music Group(na época WEA).
E aqui vai um detalhe importante: este álbum ainda mostra um momento de identidade sonora em construção para a banda. Os Titãs ainda não eram o grupo pesado e agressivo que explodiria no disco seguinte, Cabeça Dinossauro. Pelo contrário. O disco flerta com várias sonoridades típicas dos anos 80: new wave, pop rock, reggae, funk e até influências de doo-wop.
No entanto, no meio dessa mistura sonora, existe uma faixa que se destaca não apenas pelo ritmo, mas principalmente pela força de sua crítica cultural. Essa faixa é Televisão.
E é exatamente sobre ela que vamos falar.
O contexto do álbum: Titãs ainda em formação
O álbum Televisão surgiu em um momento curioso da história da banda. A formação clássica ainda estava intacta, com nomes como Arnaldo Antunes, Toni Bellotto, Marcelo Frommer e Nando Reis participando ativamente das composições.
Entretanto, o disco não foi exatamente um sucesso comercial. Parte disso se deve ao fato de que os Titãs ainda estavam procurando sua identidade estética. Inclusive, anos depois, alguns membros da banda comentaram que a proposta conceitual do álbum — cada faixa representando um canal de TV — acabou soando confusa.
Musicalmente, o disco passeia por várias influências:
new wave em várias faixas
reggae na primeira versão de “Pra Dizer Adeus”
mistura de funk e new wave em “Pavimentação”
elementos de doo-wop em “Sonho com Você”
Ou seja: era um disco experimental. Ainda assim, dentro desse mosaico sonoro, “Televisão” aparece como uma crítica direta à influência da mídia na sociedade.
E é justamente isso que torna a música tão interessante.
A televisão e a alienação cultural
A letra da música começa de maneira direta e brutal:
“A televisão
me deixou burro
muito burro demais.”
Não há metáforas complexas logo de início. A crítica é frontal. A televisão aparece como um instrumento de empobrecimento intelectual.
Mas vamos olhar mais de perto.
“Agora todas as coisas que eu penso me parecem iguais”
Aqui, o eu-lírico afirma que perdeu sua capacidade de discernimento. Tudo parece igual. Tudo parece nivelado.
Essa ideia é extremamente poderosa porque sugere algo que filósofos da comunicação discutem há décadas: a massificação do pensamento.
Quando a televisão — ou qualquer meio de comunicação dominante — passa a oferecer versões simplificadas da realidade, o público pode acabar absorvendo essas narrativas sem questionamento.
Nesse sentido, a música dialoga com debates clássicos sobre mídia e cultura, muito próximos das reflexões da chamada Escola de Frankfurt sobre indústria cultural.
A ignorância cotidiana
Outro trecho curioso diz:
“O sorvete me deixou gripado
pelo resto da vida.”
Aqui aparece um elemento importante: a desinformação.
A frase soa absurda, quase infantil. No entanto, essa construção exagerada serve como metáfora para mostrar como informações superficiais podem ser absorvidas como verdades absolutas.
É uma crítica à forma como o espectador aceita passivamente aquilo que recebe da televisão.
E, claro, essa crítica fica ainda mais atual quando pensamos em fake news, teorias conspiratórias e bolhas informacionais da internet.
O bordão de Golias e a sátira cultural
Um dos momentos mais icônicos da música aparece no refrão:
“Ô, Cride! Fala pra mãe!”
Essa frase é uma referência direta ao humorista Ronald Golias, um dos grandes nomes da comédia brasileira do século XX.
Golias costumava usar esse bordão em seus programas humorísticos, referindo-se ao amigo de infância Euclides Gomes dos Santos, conhecido como Cride.
Ao inserir essa referência na música, os Titãs fazem duas coisas ao mesmo tempo:
Evocam um elemento popular da cultura televisiva brasileira
Transformam esse bordão em um grito de alerta
Ou seja, a música se apropria da linguagem da televisão para criticar a própria televisão.
A passividade diante da tela
Outro trecho importante diz:
“A mãe diz pra eu fazer alguma coisa
mas eu não faço nada.”
Aqui aparece uma crítica à passividade do espectador.
O personagem da música é alguém completamente paralisado. Ele não reage, não age, não questiona. Apenas consome conteúdo.
Logo em seguida, surge outra imagem simbólica:
“A luz do sol me incomoda
então deixa a cortina fechada.”
Essa frase é particularmente poderosa. Ela sugere que o indivíduo se acostumou tanto à escuridão da sala de TV que qualquer contato com a luz do mundo real se torna incômodo.
Metaforicamente, isso representa a perda do senso crítico.
A animalização do indivíduo
No final da música aparece uma imagem forte:
“Agora eu vivo
dentro dessa jaula
junto dos animais.”
Aqui ocorre algo interessante: a palavra “burro”, usada no início da letra como insulto, passa a adquirir um sentido literal.
O sujeito foi animalizado.
Ele deixou de ser um indivíduo crítico e passou a ser apenas mais um ser domesticado.
A televisão, nesse contexto, não apenas informa — ela domestica.
“Tudo que a antena captar meu coração captura”
Esse verso é talvez um dos mais inteligentes da música.
Ele traz uma inversão sintática que cria uma espécie de gradação entre dois verbos:
captar
capturar
A antena capta sinais. Mas o coração captura essas mensagens.
Ou seja, o processo de comunicação deixa de ser apenas técnico. Ele passa a ser emocional e psicológico.
A mensagem da mídia não apenas chega até nós.
Ela nos aprisiona.
Por que essa música continua atual?
A grande ironia é que a música criticava a televisão nos anos 80 — mas hoje poderíamos trocar a palavra “televisão” por:
redes sociais
algoritmos
feeds infinitos
A lógica continua a mesma.
A crítica dos Titãs era, na verdade, uma crítica à cultura da distração permanente.
E nesse sentido, a música se tornou quase profética.
A importância cultural da canção
Mesmo não sendo o maior sucesso da banda, “Televisão” se tornou uma das músicas mais emblemáticas do rock brasileiro dos anos 80.
Isso porque ela combina três elementos fundamentais:
ironia
simplicidade poética
Esse tipo de composição foi essencial para moldar a identidade artística dos Titãs, que atingiria seu auge no disco Cabeça Dinossauro.
No final das contas, a música nos deixa uma pergunta incômoda.
A televisão — ou qualquer mídia dominante — reflete o gosto do público ou molda esse gosto?
Em outras palavras:
A TV mostra o que o povo quer ver…
ou o povo passa a querer aquilo que a TV mostra?
Essa pergunta continua absolutamente atual.
Talvez até mais hoje do que em 1985.
Portanto, vale a reflexão:
A mídia realmente emburrece?
Ou somos nós que deixamos isso acontecer?