Poucas músicas na história do rock podem se dar ao luxo de afirmar que mudaram o curso da música popular mais de uma vez. “Walk This Way”, do Aerosmith, é uma dessas raridades. Lançada originalmente em 1975 no álbum Toys in the Attic e transformada em single em 1976, a faixa não apenas ajudou a consolidar o Aerosmith como uma força mainstream nos anos 1970, como também se tornou, uma década depois, a ponte definitiva entre o rock e o hip hop. E sim, isso é um feito gigantesco.
Antes de virar um símbolo da fusão de gêneros, “Walk This Way” começou sua vida como um experimento quase casual. Era apenas mais um riff que Joe Perry estava testando durante uma passagem da banda pelo Havaí, inspirado pelo funk cru e sincopado do The Meters. Isso por si só já diz muito: o DNA da música não é puramente rock. Existe ali um groove rítmico, quase dançante, que se destaca dentro do hard rock setentista da banda.
Quando a faixa foi lançada como o sétimo single do Aerosmith e o terceiro de Toys in the Attic, o impacto foi imediato. Em 1977, “Walk This Way” alcançou o número 10 da Billboard Hot 100, consolidando uma sequência impressionante de sucessos da banda na década. Mais importante ainda, ajudou a transformar o Aerosmith de uma promessa barulhenta em uma instituição do rock americano. Não à toa, a música integra a lista The Rock and Roll Hall of Fame’s 500 Songs That Shaped Rock and Roll.
Musicalmente, a estrutura da canção é simples, mas extremamente eficaz. Ela se inicia com dois compassos secos de bateria de Joey Kramer, quase como um chamado à atenção, antes de Joe Perry despejar um dos riffs mais reconhecíveis da história do rock. O riff é sujo, repetitivo, hipnótico — e funciona como uma espinha dorsal perfeita para o baixo de Tom Hamilton e os acentos precisos de Brad Whitford.
Então entra Steven Tyler, cuspindo palavras em alta velocidade, com uma cadência que, retrospectivamente, soa quase profética. Tyler não canta exatamente; ele ataca o microfone, usando a voz como instrumento rítmico. Joe Perry, inclusive, já comentou que Tyler, como ex-baterista, pensa as palavras como elementos de percussão. E isso fica óbvio aqui. As sílabas se encaixam no groove com uma precisão quase funk, algo raro no rock branco dos anos 1970.
As letras contam a história de um adolescente perdendo a virgindade — um tema clássico do rock — mas o fazem com duplos sentidos, humor e uma entrega quase teatral. O refrão, baseado quase exclusivamente na repetição de “Walk this way, talk this way”, funciona como um mantra simples e grudento, feito sob medida para performances ao vivo. E, de fato, em shows, Steven Tyler frequentemente transforma esse trecho em um momento de interação coletiva, com o público respondendo em coro.
A história da criação da música já é lendária. Durante as gravações de Toys in the Attic, no Record Plant, em Nova York, a banda estava perigosamente curta de material novo. Foi então que decidiram revisitar aquele riff criado no Havaí. O título surgiu quase como uma piada interna, depois de uma ida ao cinema para assistir Young Frankenstein, de Mel Brooks. A frase “walk this way”, dita de forma cômica pelo personagem de Marty Feldman, acabou batizando uma das músicas mais icônicas da história do rock.
Já a letra nasceu em circunstâncias caóticas, como manda o figurino do Aerosmith clássico. Steven Tyler escreveu os versos, perdeu o papel em um táxi e, tomado pelo pânico (e provavelmente por substâncias ilícitas), reescreveu tudo diretamente nas paredes e degraus de uma escada usando lápis nº 2. Isso não é apenas uma boa anedota — é praticamente um resumo da estética da banda naquele período: excessiva, desorganizada e, estranhamente, genial.
Décadas depois, em 2008, a Rolling Stone colocaria “Walk This Way” na 34ª posição da lista das 100 Greatest Guitar Songs of All Time. Um reconhecimento tardio, mas merecido. O riff de Joe Perry é daqueles que qualquer iniciante tenta aprender e qualquer veterano respeita.
No entanto, se a história da música terminasse nos anos 1970, ela já seria relevante. O que a transforma em algo verdadeiramente histórico acontece em 1986, quando o grupo de hip hop Run-DMC decide regravá-la para o álbum Raising Hell. E aqui, sem exagero algum, estamos falando de um ponto de inflexão cultural.
O produtor Rick Rubin apresentou o Toys in the Attic ao Run-DMC, que já usava a introdução de “Walk This Way” em performances de freestyle, sem conhecer a música inteira ou sua letra. Joseph Simmons e Darryl McDaniels sequer sabiam quem era o Aerosmith. Ainda assim, Rubin insistiu na regravação. A resistência inicial foi grande — o grupo não queria lançar a faixa como single. Mas quando Steven Tyler e Joe Perry entraram no estúdio para colaborar, algo mágico aconteceu.
A versão de 1986 não apenas respeita o riff original, como o ressignifica completamente. A batida ganha peso hip hop, os versos são rimados com agressividade urbana e o famoso muro simbólico entre rock e rap literalmente cai no videoclipe. O resultado? Um sucesso monumental.
A faixa alcançou o quarto lugar na Billboard Hot 100, superando a posição da versão original, e se tornou um dos primeiros grandes sucessos do hip hop no Reino Unido, onde chegou ao oitavo lugar. Mais do que números, porém, “Walk This Way” ajudou a legitimar o rap para um público que até então o ignorava ou rejeitava. O Soul Train Music Award de Melhor Rap em 1987 foi apenas a cereja do bolo.
Para o Aerosmith, a colaboração foi um renascimento. Após anos marcados por drogas, álcool e um álbum fracassado (Done with Mirrors), a banda voltou ao centro do palco. O caminho estava aberto para Permanent Vacation e hits como “Dude (Looks Like a Lady)”. “Walk This Way” não apenas salvou uma carreira — reiniciou uma franquia inteira.
Já nos anos 2000, a música voltaria a ser reinterpretada, dessa vez de forma bem mais controversa. Em 2007, Girls Aloud e Sugababes lançaram uma versão colaborativa como parte da campanha beneficente Comic Relief. Comercialmente, foi um sucesso imediato: número um no UK Singles Chart. Criticamente? Um desastre.
A imprensa especializada foi implacável. Em 2008, a revista Total Guitar colocou essa regravação na lista das piores da história. Muitos apontaram que o sucesso se devia muito mais ao apelo beneficente e à popularidade das bandas do que à qualidade artística da releitura. O videoclipe, que recriava o icônico clipe do Run-DMC com participações de celebridades britânicas usando narizes de palhaço, parecia mais uma paródia do que uma homenagem.
E talvez essa seja a prova final da força de “Walk This Way”. Mesmo quando reinterpretada de forma questionável, a música continua relevante, sendo reutilizada, debatida e comparada. Nem todas as canções sobrevivem a isso.
No fim das contas, “Walk This Way” não é apenas um hit. É um ponto de encontro entre gêneros, gerações e culturas. Uma música que nasceu de um riff improvisado, virou um clássico do rock, ajudou a criar o rap rock e ainda ressuscitou carreiras. Poucas faixas podem carregar esse currículo sem soar exagerado.
E olhando hoje, com ouvidos treinados e distância histórica, fica claro: se existe uma música que realmente andou para que outras pudessem correr, essa música é “Walk This Way”.
Referências
- Yasui, Todd Allan (17 de setembro de 1987). “Faster Pussycat Scratches”. The Washington Post.
- Giles, Jeff. «The History of Aerosmith’s Funky, Slow-Building Hit ‘Walk This Way’». Ultimate Classic Rock (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2019
- ↑ 500 canções (em inglês)
- ↑ Gavin Edwards. «”Walk This Way” Makes 100 Greatest Guitar Songs Of All Time». Rolling Stone. Consultado em 12 de junho de 2008
- ↑ Gabriel Pillar Rossi, ed. (2004). «Rock Pesado & Punk». Mundo Estranhoapresenta Rock!. São Paulo: Editora Abril. p. 45
- ↑ Ir para: a b c «How Aerosmith Created ‘Walk This Way’ – WSJ». web.archive.org. 10 de março de 2015. Consultado em 3 de novembro de 2019
- ↑ LTD, BubbleUp. «Aero Force One – Login». Aerosmith Official Website(em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2019
- ↑ «Run-D.M.C. | Biography, Albums, Streaming Links». AllMusic (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2019
- ↑ Cheryl Lynette Keyes (2004). Rap Music and Street Consciousness. University of Illinois Press. p. 80. ISBN 978-0252072017
- ↑ «DMC: The Real Story of Aerosmith + Run-D.M.C.’s ‘Walk This Way’». Consultado em 3 de novembro de 2019
- ↑ www.allmusic.com
- ↑ BBC News – Dion sang ‘worst ever cover song’
- ↑ «European Hot 100 – Week of March 31, 2007». Billboard. Nielsen Company. 31 de março de 2007. Consultado em 4 de abril de 2016