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Argonautha – Música e Cultura Pop

The Smiths (álbum)

The Smiths (álbum)

Ano de Lançamento: 1984

O álbum de estreia autointitulado da banda britânica de rock alternativo The Smiths foi lançado em 20 de fevereiro de 1984.
O disco foi extremamente aclamado pela crítica e estabeleceu a banda como uma das forças mais influentes do cenário indie pop dos anos 1980, alcançando o segundo lugar na parada de álbuns do Reino Unido.

Faixas do Álbum

O alinhamento de faixas variava ligeiramente entre a versão original do Reino Unido e a versão lançada nos Estados Unidos (que incluiu o single “This Charming Man”). Abaixo está a lista da versão britânica original:

Ficha Técnica Principal

As Polêmicas em torno das Letras

A polêmica em torno das letras do álbum de estreia dos The Smiths reflete o desejo de Morrissey de quebrar tabus sociais e expor as feridas abertas da sociedade britânica. Nenhuma faixa causou tanto alvoroço, revolta e boicote quanto “Suffer Little Children”.
Abaixo estão os detalhes sobre essa e outras composições que chocaram o Reino Unido em 1984:

1. “Suffer Little Children” e os Crimes de Manchester

A faixa de encerramento do álbum aborda diretamente um dos traumas mais profundos da história moderna da Inglaterra: os Moors Murders (Assassinatos dos Mouros).
O crime real: Entre 1963 e 1965, o casal de assassinos em série Ian Brady e Myra Hindley sequestrou e matou cinco crianças e adolescentes na região de Manchester, enterrando os corpos nos campos áridos de Saddleworth Moor. Morrissey cresceu na mesma época e na mesma vizinhança onde algumas das vítimas sumiram, carregando esse fantasma por toda a infância.
A ousadia da letra: Diferente de bandas punk que citavam os assassinos apenas para chocar de forma barata, Morrissey escreveu uma elegia sensível, mas terrivelmente realista. Ele citou três das vítimas pelos nomes próprios na letra: John Kilbride, Lesley Ann Downey e Edward Evans. A letra descreve os fantasmas das crianças implorando para serem encontradas na terra fria. Ele também cita nominalmente a assassina (“Hindley wakes and Hindley says…”).
A revolta e o boicote: O impacto local foi devastador. Os tablóides britânicos acusaram a banda de comercializar e lucrar com uma tragédia real. O avô de uma das vítimas ouviu a música tocar em uma jukebox de um pub e ficou horrorizado. Pressionadas pela opinião pública, grandes redes de lojas do Reino Unido (como Boots e Woolworths) retiraram o álbum de circulação de suas prateleiras.
A redenção com as famílias: Morrissey decidiu enfrentar a situação. Ele entrou em contato direto com os familiares das crianças assassinadas para explicar a verdadeira intenção da música: uma homenagem poética e um manifesto para que Manchester nunca esquecesse suas crianças. O cantor desenvolveu uma amizade profunda e duradoura com Ann West (mãe de Lesley Ann), que defendeu publicamente as intenções honrosas da banda

2. “Reel Around the Fountain” e as Falsas Acusações

A faixa de abertura do disco também esteve no centro de uma tempestade moral inflamada pela imprensa britânica.
A acusação de pedofilia: O tablóide The Sun publicou uma matéria alegando falsamente que a letra da música fazia apologia ao abuso de menores. A polêmica girou em torno de versos ambíguos como “I dreamt about you last night and I fell out of bed twice / You face and your limbs all turned to stone” (Sonhei com você ontem à noite… Seu rosto e seus membros viraram pedra) e “Fifteen minutes with you / Well, I wouldn’t say no” (Quinze minutos com você / Bem, eu não diria não).
A defesa da banda: Os Smiths negaram veementemente a interpretação maldosa do jornal. Morrissey explicou que a canção tratava da perda da inocência de forma puramente metafórica e poética, abordando o fim da infância sob a perspectiva de um jovem descobrindo a dureza do mundo adulto. O caso acabou sendo resolvido judicialmente, com o jornal tendo que se retratar.

3. “The Hand That Rocks the Cradle”

Mantendo o clima de ambiguidades perturbadoras que Morrissey adorava explorar, esta música foi vista por muitos críticos como uma continuação temática de “Reel Around the Fountain”.
O tema: A letra assume o ponto de vista de um adulto cuidando de uma criança pequena enquanto ela dorme. Embora a superfície evoque uma canção de ninar protetora, versos como “There is something wild in my eyes” (Há algo selvagem nos meus olhos) e a promessa de que “Your mother will never know” (Sua mãe nunca saberá) criavam uma atmosfera de suspense psicológico e desconforto que dividia os ouvintes sobre a real natureza daquela relação.
A transição da produção de Troy Tate para John Porter no álbum de estreia dos The Smiths é um dos episódios mais debatidos da história do rock alternativo. Ela moldou diretamente o som que definiu a banda, dividindo opiniões entre os próprios integrantes e os fãs até os dias de hoje.

A Visão de Troy Tate: Crua e Urgente

No verão de 1983, a banda gravou 14 músicas com Troy Tate (ex-guitarrista do The Teardrop Explodes). A intenção de Tate era capturar a energia crua e direta que os Smiths demonstravam em seus shows.
O Som: As gravações — que ficaram conhecidas como The Troy Tate Sessions — tinham uma estética muito mais voltada para o post-punk. As guitarras eram mais rústicas, a bateria era muito dominante e o som geral remetia a uma fita demo de garagem, cheia de urgência e agressividade.

O Descarte: Geoff Travis, o chefe da gravadora Rough Trade, tinha sérias reservas sobre o resultado comercial daquelas fitas. Ele sentia que o som estava cru demais para estourar nas rádios e apresentou o material a John Porter.

A Intervenção de John Porter: Polimento e Camadas

John Porter ouviu as fitas de Tate e deu um veredito implacável: afirmou que as gravações estavam “fora de tom e fora de tempo”. Ele convenceu a gravadora e a banda de que o material era irrecuperável e propôs regravar tudo do zero.
  • O Som: Porter trouxe uma abordagem de estúdio muito mais convencional e profissional. Ele limpou as distorções, poliu a instrumentação e focou em criar várias camadas de som. Foi ele quem incentivou Johnny Marr a fazer overdubs de guitarra (gravar várias faixas da mesma linha para encorpar o som), criando o famoso efeito brilhante e cristalino (shimmering guitar) que virou marca registrada do músico.
  • O Resultado: O álbum ganhou uma atmosfera mais leve, radiofônica, melancólica e pop.

Tabela Comparativa das Versões

Característica

Versão Troy Tate (Abortada)Versão John Porter (Oficial)
Estilo MusicalPost-punk cru, agressivo e direto.Indie pop polido, limpo e comercial.
GuitarrasRústicas, com menos efeitos e mais secas.Muitas camadas (overdubs), acústicas e brilhantes.
Voz de MorrisseyMais natural, sem efeitos e integrada à banda.Mais destacada na mixagem, com eco e reverberação.
Bateria e BaixoCondução pesada, crua e muito evidente.Mais contida, focando na melodia da guitarra.
Status AtualLançada apenas como bootleg(disco pirata).O disco oficial de estreia de 1984.

A Insatisfação dos Smiths e o Impacto Posterior

Apesar de terem aceitado a troca na época, os integrantes da banda nunca ficaram 100% satisfeitos com o trabalho de John Porter. Morrissey e Marr sentiam que o polimento excessivo tirou parte da alma e da energia vital das canções.

Essa frustração foi tão grande que, poucos meses após o lançamento do álbum, a banda decidiu lançar a coletânea Hatful of Hollow (1984). Esse disco trazia as mesmas músicas do álbum de estreia, mas gravadas ao vivo nos estúdios da rádio BBC (nas famosas John Peel Sessions). Para muitos fãs e críticos, as versões da BBC conseguiram o equilíbrio perfeito: tinham o brilho das guitarras de Marr com a urgência que Troy Tate tentou registrar no início.

Ainda assim, algumas faixas da era de Troy Tate foram aproveitadas oficialmente como lados B de singles da banda, como a canção “Jeane” (B-side de This Charming Man) e “Accept Yourself”.
A capa do álbum de estreia dos The Smiths é um marco do design dos anos 1980 e sintetiza perfeitamente a identidade visual que a banda carregaria ao longo da carreira.

A Capa do Disco e a Origem da Imagem

A Origem: A foto é um frame do filme underground Flesh (1968), dirigido por Paul Morrissey e produzido por Andy Warhol.
O Astro: Joe Dallesandro era um dos modelos e atores mais famosos do círculo de Warhol (conhecidos como Warhol Superstars).
A Estética: A escolha reflete a paixão do vocalista Morrissey pelo cinema clássico, pelo movimento Kitchen Sink Realism britânico e pela cultura pop dos anos 1960. Ele mesmo desenhava a arte de quase todas as capas do grupo, usando tons monocromáticos e ídolos cultuados.

O Significado e o Conceito

  • A Estética de Morrissey: O vocalista Morrissey foi o responsável por escolher a imagem. Ele queria fugir dos clichês de capas de bandas de rock da época (que costumavam usar fotos dos próprios integrantes sorrindo ou posando).
  • Homoerotismo sutil: A imagem de Dallesandro deitado, pensativo e sem camisa trazia uma carga de sensualidade, vulnerabilidade e homoerotismo que combinava com as letras ambíguas e melancólicas do álbum.
  • Fetiche do Cinema Antigo: Morrissey era obcecado por cinema clássico, subculturas e pelo glamour decadente de Hollywood e Nova York, elementos que a foto sintetiza perfeitamente.

Curiosidades Técnicas

    • O Filtro de Cor: A imagem original do filme era colorida, mas foi cortada e tingida com um tom de azul-esverdeado monocromático para o vinil.
    • A Tipografia: O nome da banda foi colocado de forma simples no topo, usando uma fonte sem serifa limpa, deixando que a fotografia fosse o centro absoluto das atenções.