A expressão “A Turuna” ocupa um lugar curioso e importante na história da música instrumental brasileira do início do século XX. Mais do que um simples título recorrente, ela está associada a um conjunto de gravações históricas realizadas pela lendária Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, um dos grupos mais influentes da formação da música urbana no Brasil.
Sob a regência do maestro Anacleto de Medeiros, a banda desempenhou papel decisivo na consolidação de uma linguagem musical que unia tradição europeia, sensibilidade brasileira e os primeiros passos da indústria fonográfica nacional. Nesse contexto, “A Turuna” aparece como um termo ligado a gravações e arranjos que ajudaram a moldar o repertório das bandas brasileiras em seus anos formativos.
Para compreender sua relevância, é necessário olhar para o cenário cultural do Rio de Janeiro no início do século XX, quando a música instrumental vivia uma fase de intensa transformação.
O Rio de Janeiro e o nascimento da música gravada
No início dos anos 1900, o Rio de Janeiro era o principal centro cultural do Brasil. A cidade concentrava teatros, bandas militares, clubes musicais e as primeiras iniciativas de gravação sonora do país.
Foi nesse ambiente que surgiu a atuação pioneira da Casa Edison, comandada pelo empresário tcheco naturalizado brasileiro Fred Figner. A empresa foi responsável por introduzir os primeiros discos comerciais no Brasil, utilizando o formato de 78 RPM.
As gravações eram realizadas de maneira totalmente mecânica. Não havia microfones, amplificação elétrica ou qualquer tipo de edição posterior. Os músicos precisavam executar suas peças diretamente diante de um grande cone acústico, o que exigia precisão absoluta e enorme domínio técnico.
É nesse contexto que surgem as gravações associadas ao repertório conhecido como “A Turuna”.
O que é “A Turuna”?
A expressão “A Turuna” não se refere a uma única composição isolada, mas sim a um conjunto de registros e arranjos vinculados ao repertório da Banda do Corpo de Bombeiros.
Essas gravações incluem obras populares, danças e peças instrumentais que circulavam amplamente no repertório das bandas brasileiras no início do século XX.
Entre os registros mais importantes associados a esse termo, destacam-se duas obras fundamentais:
- a quadrilha de Felisberto Marques
- e um tango de Ernesto Nazareth
Ambas foram interpretadas pela Banda do Corpo de Bombeiros e lançadas comercialmente pela gravadora Odeon, consolidando-se como parte essencial da discografia inicial da música brasileira.
A quadrilha de Felisberto Marques
Uma das obras mais importantes associadas a “A Turuna” é a quadrilha instrumental composta por Felisberto Marques.
Felisberto Marques foi flautista da primeira formação da própria Banda do Corpo de Bombeiros, o que reforça a forte ligação entre os músicos da época e o repertório executado pelo grupo.
A obra, estruturada em partes — como a célebre “5ª parte”, gravada em 1904 — segue o modelo das quadrilhas europeias, mas adaptada ao contexto brasileiro das bandas de música.
As quadrilhas eram peças dançantes divididas em seções, frequentemente executadas em bailes, festas populares e eventos sociais. Sua estrutura fragmentada permitia grande variedade melódica e rítmica, o que as tornava ideais para apresentações públicas e gravações fonográficas.
Sob a regência de Anacleto de Medeiros, a execução da quadrilha ganha refinamento técnico e equilíbrio sonoro, características que se tornariam marca registrada da banda.
Essa gravação, lançada pela Casa Edison, representa um dos primeiros registros comerciais de música instrumental brasileira, tornando-se documento fundamental para a história da fonografia nacional.
O tango brasileiro de Ernesto Nazareth
Outro destaque associado ao repertório de “A Turuna” é a interpretação de um tango brasileiro composto por Ernesto Nazareth.
Embora o termo “tango” remeta ao gênero argentino, no Brasil do início do século XX ele assumia características próprias, aproximando-se do maxixe e de outras formas urbanas da música popular.
Nazareth, pianista e compositor de enorme importância para a música brasileira, desenvolveu uma linguagem híbrida que combinava sofisticação harmônica europeia com ritmos brasileiros urbanos.
Quando sua obra é interpretada pela Banda do Corpo de Bombeiros, o resultado ganha uma nova dimensão.
A transcrição para banda amplia a sonoridade original do piano, transformando a peça em um espetáculo coletivo de sopros e percussão. Lançada por volta de 1905 ou 1906 pela Odeon, essa gravação reforça o papel da banda como mediadora entre o repertório de salão e o público amplo das primeiras gravações comerciais.
A importância de Anacleto de Medeiros
Nenhuma análise do repertório associado a “A Turuna” estaria completa sem destacar a figura de Anacleto de Medeiros.
Considerado um dos maiores maestros da história das bandas brasileiras, ele foi responsável por elevar o padrão técnico e artístico da Banda do Corpo de Bombeiros a um nível de excelência sem precedentes.
Seu trabalho envolvia não apenas a regência, mas também a adaptação de obras, a organização do repertório e a formação de músicos.
Sob sua liderança, a banda passou a interpretar com precisão obras complexas, incorporando elementos harmônicos mais sofisticados e contribuindo para a modernização da música instrumental no Brasil.
Sua atuação foi decisiva para que gravações como as de “A Turuna” se tornassem referências históricas.
As bandas como base da música brasileira
No início do século XX, as bandas desempenhavam papel central na vida musical brasileira.
Elas eram responsáveis por levar música a espaços públicos, festas populares, eventos oficiais e celebrações civis. Além disso, funcionavam como verdadeiras escolas de formação musical, onde muitos instrumentistas iniciavam sua carreira.
Esse modelo formativo permitiu o surgimento de uma geração de músicos altamente qualificados, capazes de atuar tanto em contextos populares quanto em gravações comerciais.
O repertório associado a “A Turuna” reflete exatamente essa realidade híbrida, em que música popular, dança europeia e linguagem erudita conviviam de forma orgânica.
O legado das gravações em 78 RPM
As gravações da Casa Edison representam um marco na história da música brasileira.
Produzidas em discos de 78 RPM, elas exigiam condições extremamente rigorosas de execução. Qualquer erro obrigava a repetição integral da gravação, o que tornava o processo exaustivo e altamente técnico.
Mesmo assim, registros como os de “A Turuna” sobreviveram ao tempo e hoje são considerados documentos fundamentais para a compreensão da formação da música instrumental brasileira.
Esses discos revelam não apenas o repertório da época, mas também o nível artístico dos músicos e a estética sonora predominante no início da era fonográfica.
A Banda do Corpo de Bombeiros hoje
Embora as gravações históricas pertençam ao passado, o legado da Banda do Corpo de Bombeiros continua vivo no Brasil contemporâneo.
Diversas corporações militares mantêm bandas ativas que preservam essa tradição, ao mesmo tempo em que ampliam seu repertório para incluir música popular, clássica e contemporânea.
Um exemplo relevante é a Banda do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, que realiza projetos como a turnê histórica “Concerto Centenário”.
Nesse projeto, o grupo apresenta um repertório diversificado que vai do rock à música clássica, promovendo concertos acessíveis ao público mediante a doação de alimentos.
Essa continuidade demonstra como a tradição das bandas brasileiras permanece viva e em constante renovação.
Um patrimônio da música brasileira
As gravações associadas a “A Turuna” representam muito mais do que registros antigos.
Elas constituem um patrimônio fundamental da música brasileira, reunindo elementos que ajudam a compreender a formação da identidade musical do país.
Entre eles estão a influência europeia, a criatividade dos compositores brasileiros, o papel das bandas militares e o impacto da indústria fonográfica nascente.
Ao revisitar esse repertório, é possível perceber como a música brasileira moderna começou a se estruturar a partir dessas experiências iniciais.
Por isso, “A Turuna” não deve ser entendida apenas como um título histórico, mas como símbolo de um período decisivo da cultura musical brasileira, em que tradição e inovação caminharam lado a lado na construção de uma nova sonoridade urbana.