Vamos tirar isso da frente: Take On Me não é só um hit dos anos 80. Não é só um vídeo icônico da MTV. Não é só aquele falsete absurdo que destrói qualquer noite de karaokê. É uma das músicas pop mais improváveis a virar imortal — e talvez o maior “quase fracasso” da história do synth-pop.
E sim, eu vou dizer: poucas faixas dos anos 80 sobreviveram com tanto impacto cultural quanto essa.
Da Noruega gelada ao topo do mundo
Antes de tudo, contexto. A Noruega dos anos 70 não era exatamente um celeiro pop. Era fiorde, metal extremo embrionário, rádio estatal conservadora e pouca exportação cultural. Nada que gritasse “próxima capital do pop global”.
Ainda assim, foi de Oslo que emergiu o trio A-ha, formado por Morten Harket, Magne Furuholmen e Paul Waaktaar-Savoy.
A gênese da banda começa muito antes do sucesso. Magne e Paul eram adolescentes obcecados por rock progressivo, Jimi Hendrix, David Bowie e Deep Purple. Eles formaram a banda Bridges no fim dos anos 70 — uma mistura de art rock barroco e ambição juvenil.
Mas a Noruega era pequena demais.
Então, como qualquer banda com delírios legítimos de grandeza, eles fizeram o movimento clássico: mudaram-se para Londres. Sem dinheiro. Sem contatos. Sem garantia de nada.
O nascimento de um riff eterno
O embrião de “Take On Me” começou como outra música chamada “Miss Eerie”. Era mais crua, mais garage, menos definida. Mas havia ali um riff de teclado saltitante que Magne sonhou anos antes.
Esse riff — aquele gancho de sintetizador que parece pular escadas musicais — é o coração da música.
Inicialmente, o produtor Tony Mansfield tentou polir a faixa com uma produção mais típica do synth-pop britânico da época. Porém, o primeiro lançamento em 1984 simplesmente não funcionou. Afundou.
E aqui entra a primeira grande reviravolta.
A Warner Bros. decidiu tentar novamente. Chamaram o produtor Alan Tarney, que reconstruiu a faixa praticamente do zero. Usando sintetizadores como o Roland Juno-60 e a clássica LinnDrum, ele empilhou camadas de teclados, refinou o arranjo e estendeu o final do refrão.
O resultado? Uma versão mais limpa, mais dinâmica, mais pop — mas ainda carregada de tensão.
O falsete que virou lenda
Agora precisamos falar da voz.
Morten Harket não canta o refrão de “Take On Me”. Ele escala o refrão.
O salto vocal ali não é apenas técnico — é teatral. O falsete atinge notas que esmagam qualquer casual de karaokê. Mas o que torna a performance especial não é só o alcance. É a mistura entre voz de peito e falsete, criando uma potência quase operística.
Executivos da gravadora compararam Morten a Roy Orbison — só que com aparência de galã de cinema.
E sejamos honestos: nos anos 80, a MTV transformava boa aparência em combustível comercial.
O vídeo que mudou tudo
Sem o videoclipe, talvez “Take On Me” fosse apenas um hit moderado europeu.
Mas o vídeo dirigido por Steve Barron — usando a técnica de rotoscopia desenvolvida por Michael Patterson — virou um fenômeno cultural.
A estética de história em quadrinhos que ganha vida não parecia nada com o que estava na MTV em 1985. Era ousado. Era artístico. Era emocional.
E funcionou.
A música foi relançada nos Estados Unidos em 1985 e, impulsionada pela rotação massiva na MTV, atingiu o número 1 na Billboard Hot 100.
De fracasso a fenômeno global em menos de um ano.
Isso não acontece toda semana.
Mais que um “one-hit wonder”?
Tecnicamente, o A-ha não foi uma banda de um único sucesso. “The Sun Always Shines on T.V.” também foi hit. Eles gravaram “The Living Daylights” para a franquia The Living Daylights.
Mas, culturalmente, nada chegou perto do impacto de “Take On Me”.
Álbuns como Scoundrel Days e Stay on These Roads tiveram sucesso na Europa, mas nos EUA a chama diminuiu rapidamente.
Ainda assim, chamar o A-ha de “one-hit wonder” ignora um detalhe essencial: a longevidade.
“Take On Me” já ultrapassou bilhões de streams no Spotify. Décadas depois. Isso não é sorte. Isso é permanência cultural.
As tensões internas
Como toda grande banda, o A-ha tinha conflitos.
Disputas sobre crédito de composição, divisão de royalties e controle criativo criaram fissuras duradouras. Morten argumenta que contribuiu decisivamente para a nota ascendente crucial do refrão. Paul minimiza essa participação.
Essas tensões levaram a separações, reuniões e silêncios prolongados.
E, honestamente, isso faz parte da mitologia do rock. The Police, Oasis, The Beatles — todos enfrentaram batalhas internas semelhantes.
Criatividade intensa geralmente vem com egos intensos.
O impacto do MTV Unplugged
Em 2017, o A-ha apresentou uma versão desacelerada de “Take On Me” no especial MTV Unplugged em Giske.
E aqui está algo fascinante: quando você remove o brilho dos sintetizadores e desacelera o andamento, a música revela algo mais sombrio.
O trecho “I’ll be gone in a day or two” deixa de ser apenas uma linha pop e vira quase um lamento.
Essa releitura mostrou que a música não é só um hit animado — é melancólica, quase trágica.
A batalha atual
Recentemente, Morten Harket revelou um diagnóstico de Parkinson. A doença afeta resistência, coordenação e, potencialmente, a voz.
Isso adiciona uma camada emocional pesada ao legado da banda.
A possibilidade de que “Take On Me” talvez nunca seja performada novamente pelo trio original transforma a música em algo ainda mais frágil e precioso.
Por que “Take On Me” ainda funciona?
Primeiro: o riff. Instantâneo.
Segundo: o refrão. Explosivo.
Terceiro: a produção. Sintetizadores suficientes para soar anos 80, mas não datados a ponto de se tornarem caricatura.
Quarto: o vídeo. Ícone absoluto da cultura MTV.
E, finalmente, a emoção. Porque por trás do brilho, existe vulnerabilidade.
“Take On Me” é, essencialmente, um convite: assuma-me, arrisque-se, venha para o meu mundo.
É juvenil. É ambicioso. É desesperado.
É pop na sua forma mais pura.
Quarenta anos depois, “Take On Me” continua tocando em supermercados, festas retrô, vídeos do TikTok e playlists nostálgicas.
Mas não é apenas nostalgia.
É uma música que sobreviveu a três relançamentos, conflitos internos, mudanças tecnológicas e transformações na indústria.
E isso, meus amigos, é o que separa um hit de um clássico.