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Os Segredos e a Crítica Oculta em “Como Eu Quero”

“Como Eu Quero”, do Kid Abelha, é mais do que uma das canções mais icônicas dos anos 80 no Brasil. Por trás de seu refrão cativante e melodia irresistível, há uma história recheada de provocações, críticas e uma reflexão sobre relacionamentos tóxicos que poucos perceberam na época.

Lançada em 1984 como parte do álbum Seu Espião, a música rapidamente ganhou as paradas e se tornou um hino para uma geração. No entanto, seu sucesso quase não aconteceu. Originalmente considerada descartável, a faixa foi salva da exclusão pelo produtor Liminha, que viu seu potencial e a transformou em uma das músicas mais tocadas no Brasil entre 1984 e 1985.

Vamos explorar os bastidores dessa obra-prima, desde sua composição até o impacto cultural, e desvendar como “Como Eu Quero” transcende o pop rock leve para se tornar uma crítica afiada ao que Paula Toller chamou de “fascismo emocional”.

A Origem de Uma Canção Inesquecível

Inspirada em experiências pessoais, “Como Eu Quero” surgiu de um momento de inspiração simples, mas marcante. A letra foi escrita em um carro, quase como um desabafo. A composição, liderada por Paula Toller e Leoni, foi lapidada até se tornar a provocação direta e perspicaz que conhecemos hoje.

A história por trás da música envolve o relacionamento conturbado de um dos membros da banda, o baterista Benny Borja, e sua namorada da época. Pressionado a deixar a banda devido a conflitos pessoais, Borja tornou-se, indiretamente, a inspiração para a letra. Com frases enigmáticas como “Tira essa bermuda que eu quero você sério”, a canção critica a imaturidade e o controle excessivo nos relacionamentos.

Por Trás da Letra: Um Jogo de Provocações

À primeira vista, “Como Eu Quero” parece uma música de amor, mas um olhar mais atento revela camadas de ironia e críticas. Paula Toller descreveu a letra como uma “provocação feminista”, que desafia estereótipos e padrões de comportamento impostos, tanto a homens quanto a mulheres.

O verso “Tira essa bermuda que eu quero você sério” é um exemplo clássico. Segundo Toller, a frase é propositalmente feminina e foi escrita para parecer incompleta, incentivando interpretações abertas. Ela reflete um desejo de amadurecimento, exigindo que o parceiro abandone comportamentos juvenis.

Até Chico Buarque, reconhecido por seu domínio das nuances da língua portuguesa, questionou Paula sobre o significado exato da frase. Sua resposta? “É exatamente o que você acha que significa.”

A Intervenção de Liminha e o Som que Marcou Uma Geração

Se a letra já carregava um significado provocativo, o arranjo musical deu à faixa a personalidade que a tornou um clássico. O renomado produtor Liminha foi essencial nesse processo.

Quebrando com a estética predominantemente new wave que definia o Kid Abelha até então, Liminha sugeriu que o teclado liderasse o arranjo, dando à música um tom pop mais sofisticado. Além disso, o refrão final, que acabou dando nome à canção, foi adicionado de última hora, elevando seu apelo radiofônico.

Essa combinação de letra ousada e arranjo inovador ajudou “Como Eu Quero” a transcender os limites do pop rock, tornando-se atemporal.

O Sucesso Nas Paradas e o Clipe Que Refletia a Época

O impacto de “Como Eu Quero” foi imediato. A música alcançou o topo das paradas brasileiras e se tornou onipresente nas rádios. O clipe, com sua estética que misturava elementos adolescentes e feministas, consolidou a imagem de Paula Toller como ícone da década de 80.

Com uma mistura de ousadia e leveza, o Kid Abelha capturou o espírito de uma geração em transição. Na época, bandas cariocas como Paralamas do Sucesso, Blitz e o próprio Kid Abelha foram apelidadas de “rock de bermuda” devido ao visual descontraído, e a letra da música parece dialogar diretamente com essa estética, pedindo uma ruptura.

Contexto Cultural e Relevância de “Como Eu Quero”

O sucesso da música também reflete o contexto social e cultural do Brasil nos anos 80. Em uma década marcada pela redemocratização e pelo avanço dos direitos das mulheres, “Como Eu Quero” traz uma voz feminina assertiva, que desafiava convenções tradicionais sobre gênero e comportamento.

Embora não seja explicitamente política, a música pode ser vista como uma resposta ao machismo e às expectativas rígidas da sociedade patriarcal. A crítica ao “fascismo emocional”, como descreveu Paula Toller, ecoa como uma defesa da autonomia e da liberdade de escolha dentro dos relacionamentos.

O Legado de “Como Eu Quero”

Décadas após seu lançamento, “Como Eu Quero” permanece relevante. Seja por sua melodia inesquecível, seja pela letra cheia de nuances, a música continua a ressoar entre gerações.

Sua trajetória, desde uma ideia descartável até um sucesso monumental, é um testemunho do poder da música de transcender seu tempo e se conectar com questões universais.

Mais do que um hit dos anos 80, “Como Eu Quero” é uma peça única do rock nacional, rica em significado e ainda capaz de gerar debates sobre o papel das letras na crítica social.

Conclusão: O Que Torna “Como Eu Quero” Especial?

No final, “Como Eu Quero” é mais do que uma música; é um reflexo das tensões, desejos e contradições que moldaram a juventude brasileira dos anos 80. Sua história, recheada de drama, ironia e reinvenção, transforma o que poderia ter sido apenas mais um hit em uma obra cultural que transcende gerações.

Por trás de seus versos simples, há uma complexidade emocional que desafia ouvintes a repensar as dinâmicas de poder em relacionamentos. O legado do Kid Abelha, impulsionado por essa faixa icônica, continua vivo, provando que a boa música nunca perde sua relevância.

Então, quando você ouvir “Como Eu Quero” novamente, lembre-se: há mais nessa música do que aparenta.

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