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Argonautha – Música e Cultura Pop

O Abacate: o sucesso irreverente de Chiquinha Gonzaga

O Abacate” foi uma das músicas mais populares de 1904, sua gravação ocorreu no final daquele ano e sua circulação comercial se consolidou em 1905, sendo mais seguro tratar seu sucesso como pertencente aos primeiros anos do século XX.

Muito antes da consolidação do samba como símbolo da música brasileira, o teatro de revista já desempenhava um papel decisivo na formação da cultura popular do país. Foi nesse ambiente de humor, crítica social e sátira política que nasceu “O Abacate”, uma das cançonetas mais conhecidas do início do século XX. Gravada pela atriz e cantora Pepa Delgadono final de 1904 e lançada comercialmente em 1905, a obra representa um momento singular da música popular brasileira, reunindo o talento da compositora Chiquinha Gonzaga com os letristas Tito Martins e Gouveia.

Mais do que uma curiosidade histórica, “O Abacate” é um retrato sonoro da Belle Époque carioca, período marcado pela modernização da então capital federal, pela expansão da indústria fonográfica e pelo enorme sucesso do teatro musicado. Ao ouvir a gravação mais de um século depois, é possível perceber não apenas o espírito irreverente da época, mas também a extraordinária capacidade de Chiquinha Gonzaga em transformar melodias aparentemente simples em obras de enorme apelo popular.

O teatro de revista como berço dos grandes sucessos

Para compreender a importância de “O Abacate”, é necessário voltar às primeiras décadas do século XX, quando o teatro de revista ocupava posição semelhante à dos grandes musicais e programas de variedades da atualidade.

Misturando humor, dança, música e comentários sobre acontecimentos políticos e costumes da sociedade, as revistas musicais atraíam multidões aos teatros do Rio de Janeiro. Suas canções rapidamente ultrapassavam os palcos e passavam a ser cantadas nas ruas, nos cafés, nos salões e, posteriormente, reproduzidas nos primeiros discos comercializados no Brasil.

“O Abacate” nasceu exatamente nesse contexto. A composição integrava a revista musical “Cá e Lá”, espetáculo que explorava o humor leve, os trocadilhos e o duplo sentido, características que se tornariam marcas registradas do gênero.

Essa ligação com o teatro explica parte de seu enorme sucesso. Diferentemente das modinhas românticas do século XIX, a canção possuía ritmo ágil, letra espirituosa e forte vocação cênica, elementos fundamentais para conquistar o público.

Chiquinha Gonzaga em plena maturidade artística

Quando compôs “O Abacate”, Chiquinha Gonzaga já era uma das figuras mais respeitadas da música brasileira.

Pianista, maestrina e compositora, ela havia rompido inúmeras barreiras impostas às mulheres de sua época. Tornou-se a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil e construiu uma carreira extraordinária escrevendo centenas de composições para o teatro, além de polcas, tangos brasileiros, valsas e maxixes.

Sua produção revela uma característica rara: unir refinamento técnico e enorme comunicação popular.

Enquanto muitos compositores transitavam apenas entre os salões aristocráticos ou os ambientes populares, Chiquinha conseguia dialogar com ambos os universos. Suas melodias eram sofisticadas na construção harmônica, mas extremamente acessíveis ao público.

“O Abacate” exemplifica perfeitamente essa habilidade. A obra apresenta uma escrita musical leve, dinâmica e teatral, sustentando uma letra bem-humorada que conquistava imediatamente a plateia.

A importância dos letristas Tito Martins e Gouveia

Embora o nome de Chiquinha Gonzaga costume receber maior destaque, os letristas Tito Martins e Gouveia tiveram participação fundamental na criação da obra.

O teatro de revista dependia diretamente da rapidez com que seus autores transformavam acontecimentos cotidianos em sátiras musicais. Dessa forma, as letras valorizavam o humor, os jogos de palavras, os personagens caricatos e as situações cômicas, aproximando-se do que hoje poderia ser comparado a esquetes humorísticas acompanhadas por música.

“O Abacate” segue essa tradição, demonstrando como texto e melodia funcionam em perfeita sintonia para provocar o riso e entreter o público.

A gravação histórica de Pepa Delgado

A responsável por eternizar a composição foi a atriz e cantora Maria Pepa Delgado, uma das maiores estrelas do teatro musical brasileiro na primeira década do século XX.

Nascida em Piracicaba, interior de São Paulo, em 1887, Pepa mudou-se para o Rio de Janeiro em 1902, cidade que vivia intensa efervescência artística. Seu talento rapidamente chamou a atenção dos empresários teatrais, levando-a aos principais palcos da capital.

No Teatro São José, tornou-se uma das artistas mais populares de sua geração, participando de inúmeras revistas musicais e interpretando obras de compositores como Chiquinha Gonzaga.

Sua voz possuía excelente projeção, dicção extremamente clara e grande capacidade de interpretação dramática, qualidades indispensáveis para as limitações técnicas das primeiras gravações mecânicas.

Foi justamente essa combinação de presença cênica e eficiência vocal que fez de Pepa uma das primeiras estrelas da indústria fonográfica brasileira.

Um registro histórico da Casa Edison

“O Abacate” foi gravado pela lendária Casa Edison, empresa fundada por Frederico Figner e considerada o marco inicial da indústria fonográfica brasileira.

O registro foi lançado pelo selo Odeon Record, sob o número de catálogo 10.059, utilizando o processo mecânico de gravação, tecnologia que dispensava eletricidade e captava diretamente o som por meio de grandes cornetas acústicas.

Nesse sistema, não havia possibilidade de edição. Cantores e instrumentistas precisavam executar a música integralmente, sem erros, posicionando-se estrategicamente diante da corneta para equilibrar o volume sonoro.

A gravação de “O Abacate” apresenta apenas a voz de Pepa Delgado acompanhada por piano, formação bastante comum naquele período e suficiente para destacar a teatralidade da interpretação.

Um retrato da Belle Époque carioca

Ouvir “O Abacate” atualmente significa viajar para a Belle Époque brasileira.

No início do século XX, o Rio de Janeiro passava por profundas transformações urbanísticas inspiradas em Paris. Ao mesmo tempo em que avenidas eram abertas e edifícios modernos surgiam, florescia uma intensa vida cultural.

Teatros, cafés-concerto, clubes e casas de espetáculo reuniam artistas que experimentavam novas formas de entretenimento popular.

Nesse ambiente, gêneros como a polca, o maxixe, o lundu e as cançonetas conviviam e influenciavam uns aos outros. Poucos anos depois, essas experiências contribuiriam diretamente para o nascimento do samba urbano carioca.

“O Abacate” documenta exatamente essa fase de transição, funcionando como um elo entre a tradição teatral do século XIX e a moderna música popular brasileira.

O legado de Pepa Delgado

Apesar de hoje ser menos conhecida do grande público do que outras artistas pioneiras, Pepa Delgado exerceu enorme influência sobre a formação do espetáculo musical brasileiro.

Ela participou da consolidação do teatro de revista como principal veículo de divulgação da música popular antes do surgimento do rádio e do cinema sonoro.

Além disso, sua carreira demonstra como as atrizes-cantoras desempenhavam papel fundamental na popularização das composições. Muitas vezes, era a interpretação carismática dessas artistas que transformava uma música teatral em sucesso nacional.

Seu trabalho abriu caminho para gerações posteriores de intérpretes que dominariam o rádio brasileiro nas décadas de 1930 e 1940.

A atualidade de “O Abacate”

Embora pertença a um universo artístico muito distante da música pop contemporânea, “O Abacate” continua oferecendo importantes reflexões sobre a evolução da cultura popular.

A canção mostra que o entretenimento sempre dialogou com o humor, a crítica de costumes e a capacidade de transformar acontecimentos cotidianos em música. Essa característica permanece presente até hoje em diversos estilos populares, ainda que adaptada às linguagens contemporâneas.

Do ponto de vista histórico, a gravação também evidencia como a indústria fonográfica brasileira nasceu profundamente ligada ao teatro, décadas antes de o rádio e a televisão assumirem o protagonismo na divulgação musical.

Mais de 120 anos após seu lançamento, “O Abacate” permanece como um dos registros mais representativos da fase pioneira da música gravada no Brasil. Sua importância ultrapassa o valor artístico da composição: trata-se de um documento sonoro que preserva a criatividade de Chiquinha Gonzaga, o talento interpretativo de Pepa Delgado e a riqueza cultural do teatro de revista. Ao revisitar essa gravação histórica, o ouvinte encontra muito mais do que uma antiga canção cômica. Encontra um capítulo essencial da construção da música popular brasileira e da própria história do entretenimento nacional.