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Argonautha – Música e Cultura Pop

What Difference Does It Make? e os segredos dos Smiths

What Difference Does It Make?: a canção que consolidou os The Smiths

Lançada em janeiro de 1984 como o terceiro single dos The Smiths, “What Difference Does It Make?” é uma das obras mais representativas da primeira fase da banda e um dos momentos mais inspirados da histórica parceria entre Morrisseye Johnny Marr. Incluída no álbum de estreia The Smiths, a faixa consolidou a identidade artística do grupo ao reunir guitarras luminosas, letras carregadas de ambiguidades e uma interpretação vocal que oscila entre a confissão íntima e o sarcasmo.

Embora, à primeira audição, pareça tratar apenas de uma desilusão amorosa, “What Difference Does It Make?” revela uma complexidade muito maior. A canção discute culpa, preconceito, confiança, identidade e o peso dos segredos, temas recorrentes na obra de Morrissey e fundamentais para compreender por que os Smiths continuam sendo uma das bandas mais influentes da história do rock alternativo.

Mais de quatro décadas após seu lançamento, a música permanece atual justamente porque evita respostas fáceis. Em vez disso, ela convida o ouvinte a refletir sobre a fragilidade das relações humanas e sobre a dificuldade de ser plenamente aceito quando se revela quem realmente é.

O contexto dos Smiths em 1984

Quando “What Difference Does It Make?” chegou às lojas, os Smiths já eram considerados uma das bandas mais promissoras da cena independente britânica. O sucesso de “Hand in Glove” e, principalmente, de “This Charming Man” havia chamado a atenção da crítica especializada, que enxergava no grupo uma alternativa sofisticada ao pop eletrônico dominante da época.

Enquanto boa parte do mercado apostava em sintetizadores e produções exuberantes, os Smiths caminhavam na direção oposta. As guitarras cristalinas de Johnny Marr dialogavam com o folk, o rock dos anos 1960 e o pós-punk, enquanto Morrissey escrevia letras profundamente literárias, repletas de referências culturais, humor mordaz e melancolia.

Nesse sentido, “What Difference Does It Make?” representa um momento decisivo: a faixa demonstra que o sucesso inicial da banda não havia sido um acaso. Pelo contrário, ela confirma que os Smiths possuíam uma identidade artística sólida e singular.

Johnny Marr e um dos riffs mais importantes do indie

Poucas introduções de guitarra são tão imediatamente reconhecíveis quanto a de “What Difference Does It Make?”. Johnny Marr constrói um riff veloz, brilhante e extremamente elegante, que se tornou referência para inúmeras bandas de indie rock nas décadas seguintes.

Ao contrário dos guitarristas virtuoses do hard rock, Marr nunca buscou impressionar pela velocidade ou pela técnica exibicionista. Seu talento reside na arquitetura das canções. Ele cria camadas melódicas que dialogam entre si, transformando a guitarra em elemento narrativo.

Em “What Difference Does It Make?”, esse princípio aparece de forma exemplar. A guitarra transmite energia e urgência, enquanto a letra mergulha em culpa, arrependimento e incomunicabilidade. Esse contraste entre forma e conteúdo tornou-se uma das maiores marcas registradas dos Smiths.

Além disso, o trabalho da seção rítmica merece destaque. O baixo de Andy Rourke percorre linhas melódicas independentes, sem se limitar ao acompanhamento harmônico, enquanto Mike Joyce mantém uma bateria precisa, discreta e eficiente, permitindo que a dinâmica da música permaneça fluida do início ao fim.

“Todos os homens têm segredos”

A primeira frase da música já figura entre as mais famosas escritas por Morrissey:

“All men have secrets and here is mine.”

Mais do que um simples verso de abertura, trata-se de um convite para uma confissão cuja natureza nunca é totalmente revelada.

Essa indefinição é uma das maiores forças da composição. Morrissey evita explicar qual é o segredo do narrador, permitindo múltiplas interpretações.

Durante décadas, críticos associaram o verso à sexualidade, especialmente porque Morrissey frequentemente escrevia sobre desejo, repressão e exclusão em uma época em que essas questões ainda eram pouco discutidas no rock britânico. Entretanto, reduzir a música apenas a essa leitura seria simplificar excessivamente sua riqueza.

O segredo pode representar qualquer aspecto da identidade cuja revelação provoque rejeição: orientação afetiva, vulnerabilidade emocional, culpa, fracasso ou simplesmente uma verdade difícil de aceitar.

É justamente essa abertura interpretativa que mantém a canção relevante.

Amor, lealdade e manipulação

Outro trecho fundamental da música apresenta o narrador afirmando que roubou, mentiu e estaria disposto até mesmo a enfrentar uma bala pela pessoa amada.

Essa declaração demonstra um nível extremo de devoção. No entanto, a recompensa não é o reconhecimento, mas o abandono.

Aqui, Morrissey desmonta um dos mitos mais persistentes da cultura romântica: a ideia de que amor absoluto garante reciprocidade.

Na verdade, a música sugere exatamente o contrário. Quanto maior o sacrifício, maior parece ser a distância criada entre os personagens.

Esse tipo de inversão é característico da escrita de Morrissey, que frequentemente transforma clichês românticos em narrativas de desencanto.

O refrão e a ironia emocional

“So what difference does it make?”

A pergunta que dá nome à música parece indicar indiferença. Contudo, basta observar a interpretação vocal de Morrissey para perceber que essa indiferença é apenas aparente.

O narrador insiste em afirmar que nada faz diferença justamente porque tudo fez diferença.

Essa contradição revela um mecanismo psicológico bastante comum: minimizar uma perda para suportá-la emocionalmente.

É uma ironia profundamente humana.

A ambiguidade como assinatura de Morrissey

Um dos aspectos mais fascinantes da obra dos Smiths é a recusa em oferecer respostas definitivas.

Morrissey trabalha constantemente com personagens contraditórios. Eles desejam proximidade, mas têm medo da intimidade; buscam reconhecimento, mas rejeitam convenções sociais; afirmam não se importar enquanto demonstram exatamente o contrário.

Em “What Difference Does It Make?”, essa estratégia atinge um de seus pontos mais sofisticados.

O resultado é uma canção que permanece aberta à interpretação, permitindo que diferentes gerações encontrem nela novos significados.

Produção e identidade sonora

A produção preserva o caráter orgânico que definiu o álbum The Smiths. Em vez de recorrer aos sintetizadores predominantes na música pop dos anos 1980, a gravação privilegia guitarras limpas, baixo extremamente presente e uma mixagem transparente.

Essa opção estética fez com que a faixa envelhecesse de maneira notavelmente elegante.

Enquanto muitas produções contemporâneas ficaram marcadas pelos excessos tecnológicos da década, “What Difference Does It Make?” continua soando moderna justamente por sua simplicidade.

A polêmica da capa do single

Além da música, o single também entrou para a história por causa de sua arte gráfica.

A capa original utilizava uma fotografia do ator Terence Stamp extraída dos bastidores do filme O Colecionador (The Collector), de 1965, na qual o ator aparece segurando um lenço embebido em clorofórmio.

Inicialmente, Stamp não autorizou o uso da imagem. Como solução provisória, os Smiths lançaram uma capa alternativa com Morrissey recriando a mesma pose, mas segurando um copo de leite — um gesto que acabou se tornando uma das imagens mais conhecidas da banda.

Posteriormente, o ator concedeu autorização, e a fotografia original voltou a ser utilizada.

O episódio revela outra característica marcante dos Smiths: a enorme importância atribuída ao aspecto visual de seus lançamentos, sempre repletos de referências ao cinema, à literatura e à cultura britânica.

A ausência de videoclipe

Curiosamente, “What Difference Does It Make?” nunca recebeu um videoclipe convencional em seu lançamento.

Na época, Morrissey declarou que os videoclipes eram uma tendência excessivamente comercial e que provavelmente desapareceriam rapidamente.

A história mostrou exatamente o contrário: a MTV transformou o videoclipe em uma das principais ferramentas da indústria musical durante toda a década.

Ainda assim, essa posição evidencia o desejo da banda de preservar certa independência estética diante das exigências do mercado fonográfico.

O legado da canção

Com o passar dos anos, “What Difference Does It Make?” tornou-se uma das músicas mais celebradas dos Smiths e presença constante em listas de melhores canções do rock alternativo.

Sua influência pode ser percebida em artistas como Radiohead, Suede, The Libertines e Belle and Sebastian, que herdaram tanto a sofisticação instrumental de Johnny Marr quanto o lirismo introspectivo de Morrissey.

Mais importante, porém, é sua permanência cultural. Em uma época marcada pela exposição constante nas redes sociais, a ideia de carregar segredos, lidar com julgamentos e enfrentar a rejeição permanece tão relevante quanto em 1984.

“What Difference Does It Make?” representa um dos momentos mais completos da carreira inicial dos Smiths. Sua força não reside apenas na excelência do riff criado por Johnny Marr ou na interpretação dramática de Morrissey, mas na maneira como ambos constroem uma narrativa profundamente humana sobre culpa, identidade e pertencimento.

Ao transformar um segredo nunca revelado em metáfora universal, a canção ultrapassa os limites do rock alternativo e se estabelece como uma das grandes composições da música pop britânica do século XX.

Mais de quarenta anos depois, ela continua fazendo exatamente aquilo que toda obra clássica consegue realizar: provocar novas perguntas sem jamais esgotar suas respostas.